Aniversário do nosso fim.




Fulano é pra você que ainda escrevo. Pensei em começar assim esse texto, mas após a primeira frase e o ponto final estabelecido por mim e pela gramática que, diga-se de passagem, é minha pior inimiga, percebi que eu não conseguiria continuar. A vida andou, mas esse assunto já não flui mais faz tempo. 

Você percebe que a vida andou quando seu primo sobra numa curva e cai. Quem mandou andar de moto em alta velocidade numa madrugada de chuva? Nossa família é agitada, daí me ligam às duas da manhã e só venho perceber que estou de short, blusa de alça e chinelo de dedo ao me encarar na vidraça da recepção do hospital emergencial. É sempre assim, a vida anda e a gente não nota, o tempo passa e nos assustamos ao nos depararmos com a realidade expressada pelos espelhos. 

Você enfim nota que a vida andou, quando batem na traseira do seu carro e você aceita R$ 100,00, pois está ocupada demais pra perder tempo com perícia. Você aceita que amadureceu quando vai pra cama com um homem por desejo e depois volta pra casa feliz da vida sem imaginar o nome dos filhos. O amadurecimento traz a falta de crença no amor eterno e sua vida amorosa passa a funcionar por agenciamentos semanais, os atores se tornam meros freelancers e o coração agora é seu, a gestão é de sua responsabilidade, você decide quem fica e quem vai. Percebe que é mais caro manter funcionários fiéis. 

A vida anda e você passa a encarar com naturalidade que o homem que você ama hoje, não é o mesmo que você amou há um ano e não será o mesmo que amará mês que vem. O amor de hoje pode pegar um avião e ir embora. Apenas uma mulher madura consegue voltar pra casa sem querer morrer depois de entregar o homem da sua vida daquela semana a um portão de embarque. 

Você percebe que a vida andou quando lê algum texto bem antigo e sente uma pontinha de saudade de sentir toda aquela loucura que é amar de verdade. Você enfim percebe que suas amigas estavam certas ao falarem que a “vida anda” e “tudo passa” ao encarar o calendário e notar o aniversário dos amores mortos. 

Fulano é pra você que ainda escrevo, mas a vida anda, sabe? Eu só percebi que a minha vida andou, que você passou, que o amor acabou, quando sentei aqui hoje pra escrever um texto sobre nós dois, sobre nosso aniversário e não consegui. 

Parabéns por não completarmos mais um ano, por você ter conseguido me vencer, por você ter me feito desistir. Parabéns, você ganhou, você passou, me perdeu e agora a minha vida anda (sem você).



O que tem pra hoje?





O que tem pra hoje? Você escolhe.

Pegue o cardápio e leia atentamente.

“Sol, mar, chuva, frio, cupcake com glacê colorido, espaguete a carbonara, suco, água, nada.” É você quem escolhe. “Alto, magro, malando, charmoso, cheiroso ou gago. Advogado. Surfista." O que tem pra hoje está ao alcance de suas mãos. Difícil né, ter o poder de escolha? Está com dúvida? Olhe novamente e verá! "Barco, moto, serra, pão de queijo fresquinho, telas de pinturas a óleo, roupa nova." É isso! O que você quer? Escolha e lhe será dado. É assim a lei da vida, você seleciona o repertório e ele é tocado. Escolha certo, escolha de verdade. Do fundo do coração feche os olhos e diga: eu quero. Nada de quebra galho, contentamento, resignação. Quebre logo tudo, vire a banca e chute o balde. O que tem pra hoje? Tudo que lhe é de direito! "Amor, amizade, lealdade, risadas de doer a barriga, sundae de chocolate com calda. Almoço em família." De agora em diante o que tem pra hoje é você quem decide, porque apenas você meu amigo pode fazer acontecer. Escolha, o que vai querer? 

Covarde, perdi a coragem pro amor.




Desde a adolescência li na internet textos de mulheres empoderadas falando sobre liberdade, feminismo, amor livre e desapego. Mulheres pedindo desculpas por não conseguirem se comprometer, não conseguirem se doar o suficiente. Mulheres independentes que falavam sobre sexo casual, diziam não ao “Eu te amo” e fugiam de qualquer homem gentil demais, romântico demais, doação demais. Eu respirava fundo e pensava comigo: um dia - quando eu crescer emocionalmente - quero ser assim e acabar com essa baderna que é a minha vida amorosa. Nada de me esfolar viva por esses amores meio bostas, amores que eu invento e que no fim de tudo não passam de alucinação.

Eu sempre fui o elo fraco da relação, a louca da entrega, a que pensa no nome dos filhos, na viagem das férias, que faz mapa astral com uma semana. Eu sempre fui a garota rosada que acredita no amor da vida, que faz sexo apaixonado, esperando um pedido de casamento na praia. Não importa se o cara é DJ, Surfista ou médico, lá estava eu, depositando todas as fichas do amor da vida exclusivamente nele. No fim de tudo sempre me frustrava e sozinha, recolhia os meus pedaços.

E foi assim, sem notar, que me transformei. Aprendi a ter cautela e desacreditar de tudo, desaprendi a falar sobre sentimentos e me encolher, flutuar nas aguas rasas das relações de hoje. Dentro de mim ainda pulsavam milhares de questionamentos complexos, mas aprendi que a vida já é cruel demais pra ficar criando mais drama. Me tornei uma mulher mais sociável, alegre, disposta, atraente e é claro superficialmente madura. Não falar sobre medos, sonhos, angustias te faz uma pessoa equilibrada e bem resolvida aos olhos dos outros. Te faz se sentir confortável consigo mesma porque afinal de contas não dói mais. E quando dói a gente se tranca, chora, bebe, dorme, escreve na internet anonimamente e fica tudo certo.

Com o tempo a gente aprende que o amor da vida é uma construção social, algo que inventaram e repetiram pra você até você assimilar como verdade universal. A gente aprende que o egocentrismo faz bem e que a vida é assim mesmo, cada um no se quadrado, lutando as suas batalhas, conquistando o eu espaço. Se conforma que é ok você morar sozinha, viajar sozinha, não ter filhos e nunca casar. E os vazios a gente preenche com terapia, autoconhecimento, viagens a lugares incríveis, roupas e bolsas incríveis, maquiagem, Yoga e trabalho voluntário. Você começa a perceber que liberdade é isso, se permitir ser sozinha sem sofrer.

Quando eu já estava conformada que esse seria o resto de vida que teria pra mim, você surge pulando toda aquela parte em que a gente não se sente à vontade perto de um desconhecido, como se já me conhecesse a um tempão. E acho até que conhecia mesmo. Quando eu te olhei eu me reencontrei, vi a menina rosada que tinha ficado pra trás. Vi nos seus olhos o mundo que eu queria, o mundo que eu fingia que não me importava, o mundo que eu tinha deixado pra trás. Vi nos seus olhos a vida que eu deveria ter vivido. O amor que eu achava que tinha perdido, bem ali parado na frente de camiseta polo. Você buscava em mim aquela menina que te ajudou a descobrir um novo homem, que despertou em você a vontade de cuidar de alguém, construir uma família e ter um pouso certo pra ficar, ficando raiz. Eu não podia assumir o lugar ao seu lado porque eu já havia me perdido de mim há muito tempo. Eu procurava uma saída. Uma fuga. Um jeito de não te matar, mas também de não morrer.

Eu queria ter te encontrado em um barzinho qualquer da cidade, numa ida e vinda do banheiro, na luta por achar uma vaga pra estacionar na rua, na fila da Hortfuti do Pão de açúcar. Daí quando me perguntassem – Onde você conheceu o homem da sua vida? – Eu teria uma história bonita pra contar. Eu queria ter te conhecido há dez anos, quando eu ainda acreditava no amor, na palavra e no caráter das pessoas. Eu queria que fossemos do mesmo mundo, que vivêssemos a mesma realidade, algo que pelo menos me desse segurança de que poderia dar certo.

Enquanto você não viver isso comigo, eu não irei sair da sua mente – ele disse. Conheço mais da minha mente que você – respondi. E tudo é questão de tempo, me dá uns dias. 

Angústia...

A vontade de ficar perto e fugir ao mesmo tempo. Eu não posso ficar. Aquela menina não existe mais, não tem magia nenhuma nesse mundo. Sempre foi tudo mentirinha. Tenta entender, eu não devia ter te deixado acontecer, eu já não consigo mais ser aquela que um dia fui. Vai embora, volta pro que é teu. Mas quanto mais fuga, mais prisão. E quanto mais tentava escapar mais sentia que o meu lugar era ali. Meu lugar era ele. Mas na prática a teoria sempre some. Na prática, os homens vão embora depois que a gente se entrega, era essa a minha lição de vida, aprendida com tantas lágrimas. A sensação de impotência diante de algo tão simples me quebrou ao meio.

Por que você quer esquecer? - Ele perguntou angustiado.

Porque eu não quero me machucar.

E pra VOCÊ não se machucar, você ME machuca? 

Eu quero, mas não posso. Desejo, mas não devo. Covarde, perdi a coragem pro amor. A vida já bateu na minha cara tantas vezes sem gentileza, que eu preferi te mandar embora a viver tudo aquilo que queríamos pra gente. Quero que você seja feliz, mas não quero ver sua felicidade. Não quero constatar a sua felicidade sem mim, enquanto a minha é tão incerta. Egoísta, humana, covarde, fria. Não era o que eu queria ter me transformado, mas é exatamente assim que sou. Tenho problemas em perder, problemas em arriscar. E assim eu vou seguindo. Claro, vou encontrar outras pessoas e talvez me envolva com elas, contanto que nenhuma delas seja você, que nenhuma delas desperte em mim a fragilidade, a leveza e o amor que você despertou. Você não imagina o estrago que isso faz na vida de alguém!

Sabe, eu te amo, da forma mais pura e ingênua possível, da forma mais linda que consigo, mas não dá, vai embora. Eu não suportaria outra entrega, me despedaçar novamente, me reorganizar novamente, remontar tudo dentro de mim. Eu sei que seria a mulher da sua vida, eu sei que te faria muito feliz, mas eu também sei que amores machucam e eu não estou mais disposta a pagar o preço.



Eu não valho a pena




O primeiro erro que alguém pode cometer ao se relacionar comigo é se apaixonar antes de me conhecer, depositar sentimentos e sensibilidades antes de ter certeza de que eu valho a pena. Quer um conselho? Eu não valho nenhum pouco a pena. Isso mesmo. A paixão é cega, é um pathos como diriam as ciências humanas, uma droga alucinógena fabricada a base de idealizações, esperança e amores que inventamos (quer mais letal que isso?), todos esses ingredientes usados indiscriminadamente sem as precauções cabíveis, tornam-se o primeiro passo de um fiasco desmedido. Porque quando a realidade dá as caras meu bem, ninguém é tão amor infinito quanto se espera. 

Mulher alguma dá conta de ser tão linda, culta, equilibrada e boa de cama quanto o outro pensa. Tão livre do ciúme quanto da tpm. E após alguns meses quando a realidade vem a tona ainda somos forçadas a prestar contar pelas expectativas não correspondidas que não são nossas. Todo relacionamento é um contrato simbólico e quando o pacto de intenções não é verbalizado, as pessoas sofrem pelos "não ditos" e apontam o dedo pro parceiro culpando-o pelo fiasco da relação. "Cadê a mulher perfeita, linda, paciente e carinhosa que eu conheci?". A realidade é que talvez essa mulher nunca tenha existido, a não ser na sua fértil imaginação! 

Esse texto poderia ser parte da minha auto-biografia premeditada. Coisas que podemos escrever antes que elas aconteçam, pois inevitavelmente vão acontecer. Eu nunca consegui ser tão boa companhia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão culta quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão descolada quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão assídua na academia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão dona da minha própria vida quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão bem resolvida quanto pensavam que eu fosse. 

Talvez eu passe uma imagem errada de mim. Não sou metade da cabeça pensante que pareço, não tenho metade da empolgação pra malhar que já tive, não me viro tão bem sozinha quanto digo que me viro, não gosto tanto assim da minha própria companhia quanto eu digo por aí. Sou chata mesmo e tem hora que nem eu me agüento. Sou extremamente simples, caseira e cheia de manias estranhas (como ouvir Sandy e dançar no meio da rua). Faço coisas “de homem” como trocar chuveiro, pintar a parede e consertar descarga em pleno feriado. 

Já se apaixonaram por mim diversas vezes e, ainda assim, continuo solteira. Cada vez mais, quero que não se apaixonem por mim, afinal não vou ser metade da fantasia de alguém. Nem tento. Já vou dizendo logo quem sou, pois meu negócio é a realidade. Não tenho mais idade pra namoros adolescentes ou pra me interessar por viver uma ilusão. Todos que se apaixonaram por mim me fizeram sofrer no final. Queriam que eu fosse alguém que eu não sou pra eu corresponder a uma expectativa que não fui eu que criei. 

Eu não pareço, nem de longe, a garota da camiseta molhada da revista. Eu não tenho vocação (nem ausência de vergonha na casa o suficiente) pra andar de shortinho enfiado. Nunca vou colocar silicone e meus peitos vão continuar do jeito que eu gosto que eles sejam. Nunca vou achar normal traição e meu conceito de traição inclui trocar telefone (ou outro meio de contato) com uma mulher na balada. Nunca vou deixar solto quem eu amo. Minhas verdades mudam com o tempo, meus valores não. O que alguém acha de mim não vai determinar quem eu sou. Mesmo assim, não vou discordar quando alguém achar que eu não valho a pena. Eu valho. Eu valho a pena se tentarem me amar ao invés de se apaixonarem por mim.

Me perguntaram por que eu parei de escrever





Me perguntam por que parei de escrever, pra ser sincera, nem eu mesma sei. Talvez eu saiba o espírito que me tomou e fez produzir os textos que conhecem, mas quando ele vai embora, não me deixa carta de despedida. Eu apenas amanheço sem o decodificador de sentimentos e um embrulho no estômago, a má digestão do sentir tomando conta de minha existência. Não existe sal de frutas pra sentimentos não ressignificados, não existe pílula que desfaça nós na alma, então eu travo.

Não sou intelectual ou linguista. Não escrevo pra produzir arte ou literatura, acredito que boa parte da minha disposição em expor minhas letrinhas é fruto de um espírito juvenil que exala prepotência sem intencionalidade, a qual acha de tudo sabe, que de tudo já viveu. Sou bipolar assumida, daquelas que sente tudo e não entende muito, escrever é minha forma de exorcizar meus demônios, dar lógica, propor o sentido. É minha forma de me conhecer. Por isso escrevo, é através da linguagem que organizo minha existência.

Desde o início da vida, pensei o amor como um encontro entre dois seres que estão de peito aberto e alma limpa prontos a se conectar. Tratava-o com tanta simplicidade e propriedade, com tanta leveza. O amor pra mim deveria ser leve, limpo, fácil e colorido como bolhas de sabão sopradas ao ar por uma criança inocente. Um dia meu peito se abriu e eu encontrei o amor. Com simplicidade brinquei, sonhei, me entreguei e senti. Sofri. Calei. Morri. Parei de escrever.

Até que eu decidi voltar pra contar o que acontece depois. Depois que o amor morre e renasce. Pra contar sobre o Amortecimento em mim.




Sentimentos Voláteis




Então eu parei e quis dizer uma coisa bonita na frente do espelho, na frente de mim mesma e daquela pessoa de cabelo comprido que eu não conhecia, que eu olhava fixo dentro dos olhos e tinha certeza absoluta que não fazia idéia de quem era. Eu quis dizer uma coisa bonita pra que todas as coisas ruins que estavam acontecendo comigo - e com ela - naquela hora, fossem embora junto com as lágrimas de raiva e frustração que eu e ela derramávamos na frente do meu espelho enfeitado.

Eu já não era eu mesma e as horas iam passando depressa enquanto o tempo perdido se acumulava dentro de mim sem volta. Mas, aos poucos, fui percebendo que não adianta acumular a dor, não adianta pôr a cabeça pra fora na chuva e, ao invés de lavar a alma, pegar um resfriado e ficar a semana toda de cama. A minha cabeça repetitiva até quis sofrer mais um pouquinho as mudanças, pra ser poética, mas eu decidi que, dessa vez, eu seria sucinta porque, dessa vez, era pra mim, só pra mim, sem segundas e terceiras pessoas espalhadas pelos cômodos da minha vida.

Tinha que ser bonita porque todas as coisas ao meu redor andavam feias demais para me servirem de consolo; eu nunca gostei de imaginar que pra um fracasso meu, haveria de ter um consolo. Mas havia, porque sempre há alguma coisa que se salva quando o mundo resolve ser caos e você não quer bagunça naquela noite. Analisar a vida e os problemas que vêm com ela poderia até ser uma tortura chinesa que eu vivia dizendo não querer me submeter. Mas a verdade é que quem fala muito sobre uma coisa, ainda mais a quatro ventos, não pode estar fazendo outra coisa se não analisar.

Exibicionismo nenhum do mundo, mostra feridas que vão despertar tantos outros sentimentos que não inveja. 

A vida bateu na minha cara, muitos dias seguidos, sem poesia nenhuma que era pra me deixar sem vontade alguma de abrir os olhos. Só que os olhos são meus e cabe a mim saber até onde é bom enxergar, mesmo que sejam só coisas ruins que não vão me dar o sorrisinho fake que eu tenho que carregar todas as manhãs, no meio dos idiotas engomados que habitam este planeta. A verdade da história é que, por mais dura que as coisas pareçam ser, sempre vai haver alguma maciez nos subtítulos da vida de alguém que intitula todas as coisas pra não se sentir sozinha quando todos os acompanhantes vão embora para ter uma vida mais cheia de graça além da nossa.

E a solidão tem sim, embutida nela, as coisas ruins que tanto se comenta e não existe como não participar do consenso. Mas esquecem de contar que todos os questionamentos que vêm junto, quebram a idéia de felicidade utópica que, não, não existe e, por isso, machuca muito querer tanto. Não eram as segundas feiras de manhã, as sextas à noite e, tampouco, os domingo à tarde que fariam de mim uma mulher extravasada de ódio e nem menos capaz de amor. 

Assim como tudo na vida, amores e amigos vêm e vão e, fico aqui perguntando baixinho, quem sou eu então pra decidir que os meus não deveriam mudar? 

Um dia, em algum dos passados que já foram contados aqui, ali e acolá, ela resolveu que seria uma mulher descritiva. Contou cada peculiaridade das coisas estranhas que sentia, que fazia sentir. Ela chorou as mágoas em público e abriu caminho para muitas outras delas entrarem, numa metástase confusa de quem sofre por opção de não ter a opção de ver o espetáculo parar.

Alguns se vão por vontade própria. Outros, são convidados a se retirar. E ela passa a vida descrevendo as coisas que tantos sentem através dela, se tornando ela mesma, a mais frígida das mulheres perante seus próprios sentimentos.

Eu sou do bem





Em um mundo de agonias eu sempre fui o resgate, com a carta certa escondida na manga para os mais diversos desalentos, desde crises financeiras a transtornos no casamento, eu sempre fui o afago maternal que se busca após a queda. Eu fui e sou o chão seguro de muitos, a mão amável que levanta, sou o ombro chorado e lamentado, o lenço usado e jogado fora após o amasso de fúria, o ouvido entupido com desenganos. Sou o que fica depois que a dor do outro passa. Eu sou uma espécie de consciência que traz a paz e a felicidade de volta, estampando sorrisos no alvorecer de almas que se enegreceram. Eu sou do bem!

Empréstimo de roupa para encontros e textos para cartas de amor, são minha especialidade. Sou aquela que vai ao mesmo restaurante, senta-se a mesa do lado para enviar energias positivas e vibrar escondido com o toque na mão tão esperado da noite. Eu sou única que acredita na viabilidade das maiores loucuras ao se tratar de sonhos de amigos. Visto a camisa, pago mico, danço Gangnam Style e rebolo se for preciso. Vendo chocolates na praia, construo e reboco paredes, faço dieta junto pra incentivar e corro no calçadão em companhia. Eu sou aquela pessoa que atende telefonemas à noite pra ouvir e fazer rir. Sou aquela que sai de casa e enfrenta o trânsito apenas para tornar o dia de alguém mais rosinha. Eu sou amiga, isso mesmo, daquelas de verdade sabe? Daquelas que dizem por aí que não existem mais, pois é!

Dou a cara a tapa, a outra face também. Cedo meu espaço sem peso na consciência ou dor de cotovelo. Não sinto inveja ou despeita de ex. Não roubo namorado. Não me aproximo de pessoas pelo status ou o modelo do carro. Desisto de algo quando sinto que vou magoar. Apesar de não parecer para muitos eu tenho coração mole e sensibilidade mil, na realidade, de cabeça fria sou incapaz de fazer o mal a alguém. Tudo que faço é de coração aberto e alma limpa. Receber em troca só se for gratidão e respeito, pois gentileza gera paz de espírito e eu respiro em alívio todas as noites com a cabeça leve no travesseiro.

Converso e danço com passarinhos de estimação. Digo que não perdoo, mas ligo no dia seguinte para saber como anda a vida. Ligo no aniversário, Natal, Reveillon ainda que tenha prometido nunca mais ligar. Sabe o porquê? Porque isso é meu, sou assim, ninguém muda. Eu sou sim daquelas meninas bobas que dizem por aí que não existem mais. Não carrego mágoas, por pura incapacidade. Carrego comigo apenas o que foi bom e recapitulo quando o coração aperta e ameaça lágrimas. Eu sou toda amor. Se o cara não merece aí já não é mais comigo. Ele que aproveite a boca boa que a vida ofereceu, pois é de mim apenas ser amor e amar, não há mais como mudar.

Não é que eu escreva sobre melancolias, deixe-me explicar. Eu escrevo na realidade sobre o fim do amor. Por quê? Eu apanhei muito pra aprender a amar de verdade. Apenas com o passar dos anos é que fui tomando nota e dando conta de algumas lições. Eu amava com intensidade: mãe, vó, cachorro, menino da séria acima da minha, depois os professores, a melhor amiga e por últimos alguns cafajestes. Desenfreada seguia doando o melhor de mim e anotando nomes que me deviam afetos.

Eu amei muito muita gente e apanhei, da vida e de pessoas, com força, sem piedade. Tive o coração espedaçado um milhão de vezes em pedacinhos incontáveis e demorei a remonta-lo. Mas eu consegui! Por isso escrevo. Pra dizer que eu entendo e sei como é. Pra dizer ainda que vai passar e está perto. Pra afirmar que o amor vale muito a pena ainda que doa. Que o amor verdadeiro tem de ser amado apenas e só. As recompensas, a reciprocidade, o respeito aparecem sim, mas em uma embalagem colorida com fita de cor e laço bem feito deixando você com olhos arregalados de surpresa! Pode vir um remetente anônimo ou quem sabe do remetente esperado, mas não recuse se vier de um outro endereço desconhecido, o importante é que venha e traga paz.

Ser amiga, filha, mãe, mulher, namorada, esposa, ser gente de verdade dá trabalho, eu sei, mas amar é fácil. Não permita que ninguém te convença do contrário. Não desista de amar nunca. Não deixe ninguém sabotar o seu amor, pois o amor é a força do bem que nos constitui, que nos movimenta. Deixar de amar é perder a si. E ninguém, em hipótese alguma, vale mais a pena que você.

Eu digo pra vida:

– Eu sou do bem e o amor existe. Ele vem me visitar todos os dias quando acordo, dizendo “Hoje eni, vai ser demais!”.

A geração ferida


Texto completo:

Até concordo com as más línguas que afirmam por aí que nossa geração está ferida. Isso mesmo ferida, não gosto do termo perdida. Baseado na multiplicidade de caminhos trilhados, criados e refeitos por nossa juventude não é possível afirmar tamanho absurdo. Perdidos? – Nós somos os exploradores, apontamos as direções! Estamos inovando, criando e propondo novas fórmulas para solucionar um problema que não foi causado por nós. – Por isso uso este outro, mais humano e próximo da realidade: Nossa geração está Ferida, amputada.  

Tiraram de nós os alicerces chaves na construção de um sujeito íntegro, humano e politizado. Essa amputação é fruto de um processo histórico e não foi causada pelos jovens de nossa década, somos apenas o resultado de um movimento maior e carregamos o peso das consequências deste.  

As famílias na contemporaneidade reduziram-se a números mínimos e seus integrantes foram substituídos por fetiches do mundo pós-moderno. O pai: o google. A mãe: a TV. Jogos eletrônicos e demais futilidades tecnológicas tomam o espaço dos irmãos que jogavam bola na rua, soltavam pipa e escalam as árvores do quintal. O quintal hoje em dia são os RPG’s com seus cavaleiros e suas armaduras premium, conquistadas via débito online, pago pelo pai ausente na tentativa de suprir o vazio. 

 Não encontramos mais pais e filhos com bicicletas nas ruas, quedas e joelhos ralados. Hoje, carros possantes, elétricos e velozes, surgindo em telas de plasma com dezenas de polegadas e função touch screen, são a distração. Com computadores potentes e seus volantes usb somos privados de lidar com a existência do outro. Somos privados de relações. Não conseguimos mais viver em comunidade. O homem tornou-se máquina, o corpo potencializado, medido, quantificado, otimizado e produtivo, ou ainda, produto, vendido e descartável? A calçada de casa, agora é conhecida como facebook, as pessoas tornaram-se profiles nas relações cibernéticas de existências que se conectam.  

Tiraram da gente a possibilidade de viver aqui e agora, de sermos autênticos, verdadeiros para conosco e com o outro. Hoje somo expectadores e vivemos na expectativa, o púbico que apenas assiste. Nossas vivências são mais psíquicas que físicas, são imaginárias, fantasiosas. Será? A geração ferida está aí para romper esta crença.

Conheço de perto as deficiências de nossa geração e não venho aqui negá-las. Conheço também o argumento daqueles que nos culpam afirmando que “passeamos pelo romantismo utópico da época das revoluções e regredimos novamente”, exatamente por isso me ponho a defender a geração qual faço parte. A geração do improviso, da criatividade, da arte, do empreendedorismo, do “se virar e criar”, do ressignificar, do fazer diferente com o que fizeram de nós. Fomos jogados em meio a um processo histórico caótico, confuso, quebrado, desiludido e desenfreado. E apesar do contexto conseguimos harmoniosamente propor um estilo de vida, apontar saídas e novas elaborações.  

Continuo a discordar daqueles que apontam o dedo pra juventude e nos culpam, estigmatizando-nos como o “problema”. Somos a solução! É fato que temos lá nossas mazelas, mas como citado acima caros amigos à historicidade que nos constitui é inegável e o progresso é um processo. 

Carta para aquele que não soube me amar


"God knows what is hiding
In those weak and sunken eyes
A fiery throngs of muted angels
Giving love but getting nothing back"


A bíblia diz “ama teu próximo como a ti mesmo” e por mais simples e clara que essa afirmação possa ser, levei muito tempo para me dar conta do que de fato significa “amar a si mesmo”. Demorei para aprender que se não nos amarmos e respeitarmos seremos incapazes de um amor verdadeiro pelo outro. Alguns podem pensar que o amor a si é sinônimo de vaidade, egoísmo, arrogância, mas isso é reflexo dos moldes de como educamos as crianças e fomos educados um dia. O amor por nós mesmo não é estimulado, somos criados para atender ao desejo alheio, as expectativas dos pais, dos professores, da sociedade, representar papeis e seguir as ordens dos adultos. É na aceitação do outro que encontramos prazer e nos enganamos que esse é o verdadeiro amor: atender a uma demanda que é do outro, que o outro tem algo que nos pertence, algo que nos falta, algo que precisamos e nomeamos esse algo como “amor”. Nos perdemos de vista e perdemos o milagre que é sermos autênticos, sempre que somos nós. Medo, insegurança, necessidade de aceitação, é assim que se inicia e se desenvolve relações patológicas.  

O amor de verdade não, ele é respeitoso, generoso, solidário e cheio de compaixão. Quem ama a si entre em sintonia com o universo e tudo flui em sua vida. Quem ama cuida, não intimida, não diminui, não ofende, permite que o outro se desenvolva dentro de suas características próprias, ajudando a superar suas dificuldades, estimulando suas potencialidades e a perceber os limites de si, os limites do próximo. Mas não adianta nos dispormos a amar sem receber amor de volta, a cuidar sem sermos cuidados, todo mundo precisa ser acolhido, compreendido, pegue no colo. Não adianta desenvolvermos um sentimento autêntico por alguém que não nos quer com tanto carinho, não nos cuida e não acrescenta em nosso desenvolvimento nesse mundo que já é tão cruel.

Eu acredito intensamente que ninguém entra na vida de ninguém por acaso, todos temos uma missão em cada relação. As pessoas se conectam por um motivo, para produzir algo ao mundo ao a si mesmas, para ensinar e para aprender, para gerar algum benefício para o universo. E eu pensei que você tinha entrado na minha vida com essa missão: para me ensinar lições sobre Deus e sobre o amor, o amor verdadeiro.

Eu achei que com você eu aprenderia a amar, pensei que através do seu amor, do seu cuidado, do seu carinho, eu me libertaria de todos os demônios que me aprisionavam a alma durante tanto tempo. Eu achei que ter você na minha vida auxiliaria na minha evolução enquanto pessoa, me faria olhar pra dentro e remendar tudo que dói e sangra, achei que seu amor me faria uma mulher melhor, que me encheria de bondade, inspiração, alegria. Mas eu me enganei.

Não foram os sentimentos bons que causaram transformações em mim, foram as dores que você causou que me fizeram me encolher no mundo, foi o sofrimento do seu não amor que me fez enxergar que algo estava errado na minha forma de encarar as coisas. Eu desaprendi a inventar significados para os seus silêncios, desculpas para as suas ofensas, respostas para seus sumiços. Eu me encolhi, me escondi, mas eu cresci. Foi no sofrimento que eu aprendi o verdadeiro significado de amar a mim mesma, de levantar do chão, erguer a cabeça, falar mais baixo, selecionar as palavras, refletir. Aprendi a ser honesta comigo, com o outro, a jogar aberto e a questionar sem ofender, discordar sem agredir e a aceitar mudanças, entender que nem sempre as minhas decisões são as melhores pra mim, aprendi a rever conceitos que tinha sobre sentimentos e pessoas e principalmente a rever a ideia que tinha sobre você, sobre nós dois.

Somos adultos agora. Eu não sou mais a menininha assustada em busca de aprovação. Não sou mais a menina que tem medo de perguntar por ser invasiva, que tem medo de questionar por ser chata, medo de pedir pra não parecer carente. Não sou mais a adolescente perdida encantada pelos seus olhos verdes, disposta a tudo e a qualquer coisa, disposta a pagar qualquer preço para ter migalhas dos seus sentimentos. Está na hora de cuidar de mim, cuidar de mim como eu cuidei de você, como faria com nosso filho, como faço com minha mãe. Está na hora de me amar, me acolher, compreender, dizer a mim mesma que tudo bem errar de vez em quando, que todo mundo erra com todo mundo e é normal, que erros e acertos são filhos de um mesmo pai e o primeiro passo para esse aprendizado é o perdão. Perdoar a mim e a você.

Nessa jornada descobri que sou critica demais comigo mesma e frutifico pensamentos ruins e depreciativos ao meu respeito e isso não é bom, faço florescer apenas ervas daninhas em meu jardim e essa atitude tem atraído o que é negativo, o que pesa e o que destrói toda a beleza e a pureza que trago no coração. Entendi que devo compreender meus erros com a mesma ternura que compreendo os erros das pessoas que amo, tenho que sentir por mim a compaixão e o carinho que sinto pelo outro. Preciso celebrar cada mudança, cada vitória, cada acerto, preciso aprender a me alegrar comigo mesma, com minhas conquistas e minhas qualidades.

Eu tenho consciência de toda a luz que trago no peito, toda a bondade que existe na minha alma e principalmente todo o bem que fiz a você. Não, não é mesquinho admitir isso, não é pequeno, não é arrogante, não é errado reconhecer e celebrar nada disso. E principalmente dizer isso pra si mesma ou pra você não é “jogar na cara”. Não, não, não. A gente precisa aprender a lembrar quão bom nós somos, quanto de bem fazemos ao mundo para que possamos nos aceitar e nos amar como somos. Precisamos reconhecer nossos acertos, nos orgulhar de nossas qualidades e focar nos sonhos e potencialidades. É difícil, eu sei, somos educados para retrair tudo isso em prol do florescimento do outro, pelo menos eu fui. Eu tive que me esconder para que o outro pudesse brilhar e além disso, eu tive que ajudar o outro a encontrar o próprio brilho, ser feliz por sua descoberta e sucesso e aceitar apenas o limbo o qual ele me colocava. Agora, tudo que preciso é de um pouco de prática e tempo para me encontrar, me reconhecer, me afirmar, me aceitar e aprender novamente a me amar de verdade. 

Erros com você eu sei que cometi muitos, mas me desculpei de todos e espero que um dia você possa me perdoar por eles, assim como eu te perdoei. Espero que um dia você aprenda que me diminuir não vai te fazer maior, nem melhor, não vai te fazer feliz, não te fazer mais homem, não trás benefícios nenhum. Espero que um dia você aprenda o que hoje eu sei. Espero que um dia você reflita e perceba tudo que fiz por você, quem sou de verdade e o quanto eu te amei, te cuide, te acolhi, te zelei, o quanto ajudei você a ser quem você é hoje, quanto eu acreditei e apoiei você, seus sonhos, suas potencialidades. Espero que um dia toda essa energia do bem que passei pra você possa clarear a sua mente e iluminar suas ideias, para que você enxergue o que eu enxergo hoje, o que Deus sempre soube ao meu respeito e a respeito do meu amor por você.

Espero que um dia você possa entender o real significado de ser cristão, de amar ao próximo, de amar a si mesmo. E se ainda nesse dia você perceber que não me ama, que nunca me amou, que nunca foi de verdade pra você, que você possa aprender que pessoas ajudam pessoas, que nós todos temos direito ao amor, assim como temos direito de respirar, apenas por existirmos. O amor não lhe é dado apenas por comportamentos condicionados, o amor é dado por você ser você e foi esse o amor que eu te dei.


E quando esse dia chegar e você lembrar de mim, não precisa se preocupar eu vou estar bem. A garota boba, de coração mole e lágrimas fáceis vai estar bem, distribuindo amor por ai.

Parábola de uma princesa comum


Quando eu era criança e ainda tinha uma relação estável com meu pai escrevia histórias em uma máquina de datilografia. Era uma máquina gigantesca, bastante pesada, com teclas profundas e capa laranja. De vez em quando enganchava o dedo ao pressionar os botões para surgirem as palavras. Machucava, é fato, mas encantava. Sentia-me extasiada em poder ver a minha frente o que até então só estava na mente.
Sempre fui fascinada por máquinas de datilografia, na casa do meu pai haviam várias delas. Ele e os irmãos tinham uma tipografia e eu, sempre que podia, fazia questão de me sujar com graxa ao tentar confeccionar meus próprios cartões. Escrevia com orgulho em letras garrafais: 

NAYARA FONTENELE
ESCRITORA DE HISTÓRIAS

Fontenele, o sobrenome escolhido. O sobrenome amado que dava força, significado e peso a minha existência. O sobrenome que havia herdado do meu pai, assim como o talento para as letras, a veia artística e a habilidade hermenêutica, bem como tudo que sou hoje. Quando era impedida de usar as máquinas da tipografia, devido alguma encomenda ou porque tinha de estudar, apelava para caderninhos da Tilibra com fotos de adolescentes que me lembravam os atores da série Power Ranger. Comprava às escondidas na mercearia do bairro e mandava pôr tudo na conta do meu pai. Ele me financiava e inspirava. Professor de Português na época, me fazia querer ser que nem ele: Bom argumentador, criativo, brilhante, poético. Queria poder escrever e dar aulas sobre meus livros. Queria um dia poder viver de escrever apenas.
Meu amor pelas palavras surgiu bem nessa época. Lembro-me de ser oradora de turma na alfabetização e ler o discurso comprometido dos “Doutores do ABC”, qual hoje faz tanto sentido. Foi só aprender a ler e a escrever que conquistei minha liberdade. Passei a criar meu próprio universo, realidades paralelas com personagens diversos que eram todos partes de mim, expressando faces do meu eu até então desconhecidas. Meus textos eram o lugar seguro onde eu podia existir sem me preocupar. Onde eu podia me experimentar e construir. 
Escrevia minhas fantasias, personagens e dramas, no fim de semana pedia autorização para transcrever tudo em papel ofício. Na realidade, era apenas uma desculpa esfarrapada pra fazer uso das tais máquinas que eu tanto admirava e enfim produzir meu próprio livro. Folha por folha, palavra por palavra, milimetricamente pensado, digitado, amado e lido. Sim, lido! Apresentar minhas histórias ao meu pai era um orgulho. Ele lia e ria de minhas invenções questionando sobre os diálogos, personagens e contextos. Eu argumentava de volta, defendia meu ponto de vista, convencia-o que aquele era o melhor final. Ele, mesmo sem saber, treinou minha persuasão e aperfeiçoou os meus talentos. 
Meu pai admirava-se mostrando meus escritos a terceiros, quartos, quintos, tios, vizinhos, o dono da mercearia dos cadernos e o pessoal da escola. Minha imaginação era fértil, eu era brilhante, prodígio, autodidata. – Como uma menininha dessa idade consegue produzir desta maneira? – Eu não sei, ninguém sabia. Acho que a única explicação cabível seria o amor pelas letras, pela arte, pela fantasia e claro pelo meu pai, minha eterna inspiração. Todos se divertiam e diziam “Esta será uma grande escritora, veja isso 7 anos (...)”. E eu era feliz. Até que um dia, eu matei minha princesa.
O nome da Princesa era Pillar e seu drama de princesa era como qualquer outro drama de princesa comum. Nada demais. Acho sinceramente, que os adultos daquela época não estavam preparados para lidar com o fato de uma criança possuir tamanha percepção aguçada do mundo. O desfecho do drama da Princesa Comum surpreendeu a todos, pois com intuito de se libertar das amarras familiares, do príncipe que lhe abandonara, da mãe egocêntrica e manipuladora, das brigas por terras que a família vivia e do abandono do pai, jogou-se da torre mais alta de seu castelo. Feliz por voar. Feliz por enfim poder sossegar. – Suicídio, escolha poética ou patética? – Era uma provocação. A princesa do meu romance assustou muita gente, mas para mim ela era apenas uma Princesa Comum, como tantas por aí, como eu por aqui, como a parte de mim que sofria como as Princesas que sofrem por falta de amor.  
Lembro como se fosse hoje meu primeiro acompanhamento psicológico, eu não entendia porque aquela moça me retirava da sala de aula pra conversar enquanto eu perdia a matéria da prova. Não tinha o direito de me opor, apenas acatava o que me era dito. Após as conversas com ela, me levaram pra conversar com outras moças e depois outras e depois mais outras. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas passaram a me forçar a fazer o que não gostava. Tive de cair inúmeras vezes tentando aprender a andar de bicicleta, subir em árvores, fazer balé e natação. Meu pai, que já não aparecia mais todo fim de semana, cancelou a minha conta de cadernos na mercearia, esse foi o fim, meu e de Pillar. No fundo eu sabia, tudo era culpa da tal Princesa morta. Quanto alarde!           
Durante os anos que se passaram conversei com várias mulheres, tipo aquelas da escola, sempre a mesma história, sempre sobre minha vida. Eu não entendia o motivo, mas decidi parar de escrever, pois aquelas mulheres que conversaram comigo se interessavam pelas minhas histórias, então era mais fácil contar para elas, elas me entendiam. Durante muitos anos elas prenderam minha atenção e viraram o centro de minhas observações. Já que não podia mais escrever sobre princesas eu conversava sobre elas e as mulheres (minhas novas amigas) pareciam gostar.           
O tempo passou. A tipografia fechou. Meu pai se afastou. Não tínhamos mais muito em comum, ao invés de palavras agora conversávamos sobre números. Ao invés de textos conversamos sobre contas. E a única argumentação era sobre os presentes que eu gostaria de ganhar, o vestibular e o meu futuro.                  
Não sei o porquê voltei a escrever, acho que no fundo é a forma mais sincera e verdadeira de amar você pai. Essa é minha maneira de te falar o quanto você existe em mim. Continuo contando a estória de uma Princesa Comum e seu mundo desordenado, tendo a certeza de que um dia, quando os adultos estiverem preparados para isso, entenderão a minha mensagem. Quem sabe um dia você vença e eu mude o desfecho da nova Princesa. Quem sabe assim volte a se orgulhar de mim, volte a acreditar no meu sonho que era nosso sonho.
            Enquanto esse dia não chega deixo esse rascunho sobre a história da Princesa, que é pra vocês lerem, pois só nós que somos crianças conseguimos entender.