Olhei fixamente nos olhos daquela que estava a minha frente no espelho e repeti: siga e seja uma boa garota, daquelas que apenas sorri e acena e o mundo será seu. Quer um conselho? Não tente ser única, sincera e excêntrica em sua personalidade destrutivamente subjetiva, pois os homens, os grupos, os clãs, as famílias (sua de dos homens a qual você se relaciona), amigos, inimigos, invejosos e demais classes subordinadas desse planetinha de quinta estão imersos na sociedade do consumo e do controle, ocupados demais para processarem sua mensagem e lidarem com você. Facilite o processo se não quiser ficar sozinha eternamente do lado dos "se fudeu trouxa", apenas sorria e acene, é claro.

Arranque seu senso critico e a porcaria da moral que construiu, jogue tudo fora. Esqueça dos valores, da cartilha da mamãe e seja feliz longe de todas as problematizações de outrora. A felicidade é filha da ignorância e não ouse perguntar como cheguei a essa conclusão, pois perguntar incomoda e a dúvida sempre acarreta dor, desta maneira será eternamente chata, invasiva, neurótica, obsessiva, controladora, portanto sozinha. Não questione, ou sofrerá uma exclusão social total e nunca, absolutamente nunca, dê sua opinião, lembre-se você não tem opinião, essa dica é valiosa.

Daquele instante em diante fiz um trato comigo, ou melhor conosco, eu e essa outra estranha que habita dentro de mim, que me sabota o tempo inteiro, vomitando verdades na cara, vociferando e brava, eternamente irritada. Combinamos e decidimos encarar a realidade e crescer, dar as mãos e adentrar juntas O Universo dos adultos. A vida adulta nos aguarda, nos estapeia e puxa o tapete todos os dias, não há mais onde nos escondermos sem levar tapas na cara.

Acho que ser adulta deve ser isso, algo como fazer as coisas "certas", nos horários corretos e não questionar. Apenas acatar, acertar, ouvir e calar. Votar quando for necessário. Submissão. Os seres humanos me parecem carentes por submissão e eternamente inimigos da liberdade, estaria na natureza humana, além de uma forte tendencia grupal e melancólica, também um traço submisso? 

Seriam os homens inimigos da liberdade acorrentando-se a Deuses, mitos, lendas, ideologias, líderes, sentimentos, qualquer coisa, qualquer um que possa exterminar seu poder de escolha?  Escolher não escolher também é uma escolha e acho que é essa a mais cotada do século. 

Ok, Sartre deixe a mim e minhas crianças em paz por favor!