feminismo, amor


Lina tinha vinte anos... Decidi começar desta forma, não por ser didático ou esteticamente atraente. Não que Lina realmente exista ou que ela tenha de fato vinte ou dezenove. Isso importa? Não que ela seja do signo de peixes e que tenha um corpo lânguido, comprido e delicado. Não que que ela pareça um pouco comigo. Não, não é nada disso. Criei Lina para ser diferente de mim. Lina é uma boa menina.

Ela é daquelas que come certo e não é comida por menos de seis meses de namoro e um anel de noivado brilhando no dedo. Lina é diferente! Uma moça do bem, de família tradicional, com um pai que mora em casa e paga as contas mensalmente, enquanto sua mãe, apenas cozinha sonhando com a cor dos olhos dos netos. Lina não sou eu, e por conta disso Lina é linda, moça prendada. Aprendeu os afazeres domésticos ainda na infância. Ela cozinha com a experiência de uma velha e dorme com a inocência de uma lady. Aprendeu a tocar flauta e ler poesias, jogar xadrez e silenciar sempre que um timbre masculino cruza os corredores de casa.

Lina não compreende o motivo, mas no fundo da alma sente que carrega muitas culpas. Ao deitar a cabeça no travesseiro a noite, Lina chora por sentir o corpo aquecido, o coração vazio, o espírito pesado por desejos camuflados embaixo das cobertas azul anil. O travesseiro macio é colocado entre as pernas e a culpa toma conta da noite entre soluços e lamentos por Lina deixar de ser linda e se descobrir Mulher.

A culpa de ser a preferida por ser caçula. A culpa de ser desejada por ser bela. A culpa por ser cobiçada por gregos e troianos, homens e mulheres, que a comiam com os olhos retirando-lhe peça por peça de roupa ao piscar as pálpebras. Lina não entende muito da vida. Tem o coração bom e o peito cheio. Feio. Coberto por pecaminosos pensamentos, aberrações.

A boa notícia é que a bela Lina morreu na década de 30, antes de soutiens serem queimados e mulheres terem direito a gozar. Lina hoje habita o universo imaginário masculino, daqueles que não perceberam que os tempos são outros e que na vida real só encontram mulheres assim iguais a mim. Mulheres que não são Lina’s e lindas. Mulheres de verdade.