Os rostos conhecidos que rodeiam meu dia a dia, observam com caras pálidas o meu cinismo descarado. Eu sorrio que está tudo bem e eles aceitam porque, afinal, creem piamente me conhecer muito, muito mesmo, desde criancinha. O terninho bege, o rabo de cavalo no alto da cabeça, um beijinho aqui, um segredo adolescente confessado no banheiro formam o cenário perfeito de intimidade. Talvez você também julgue me conhecer plenamente, possuir domínio sobre meus sonhos, saber o nome da minha música preferida e talvez ainda as melhores experiências vividas com meu melhor amigo. Talvez eu tenha um dia dito estar apaixonada por você, talvez tenha estado. Talvez eu tenha chorado algumas noites seguidas – ou até muitas – porque você me traiu, ou porque me deixou, ou porque não quis me namorar. Talvez.

De todas as possibilidades julgadas como certezas, te garanto que a única sentença verdadeira é a de que você – Não conhece nada ao meu respeito – Ao fim de tudo, nunca sabemos nada a respeito do outro. Não por maldade, jogos de sedução ou mistério e sim porque somos complexos, sublimes e inconstantes em nossos desejos inconformados de possuir tudo.

Quando eu te conheci as horas mais preciosas do meu dia eram suas. Eu largava quem quer que fosse e esquecia compromissos. Eu perdia a fome, o foco, o sono. Tomava um banho rápido, me vestia com pressa, desligava o telefone, ignorava a campainha, ficava offline do mundo. Eu me desligava de todas as coisas, causas e propostas porque o que realmente importava era que você pudesse então me alcançar, me conhecer, entrar em sintonia com a parte de mim mais autêntica e enxergasse além da minha face rosada de boa menina.

O mundo dá voltas engraçadas mas, em muitas dessas voltas, a gente não dá risada de quase nada. Quando nosso sonho bonito enfim tornou-se realidade, eu, na minha paixão histérica, me joguei em seus braços ignorando tudo o que estava em volta da gente. O medo de acordar rápido e perder a parte boa da história era tamanho, que eu ignorava com vigor os lapsos de sobriedade. Eu esqueci que sonhos não duram pra sempre porque quando um se realiza, a gente já deu conta de sonhar mais três depois do último. Eu esqueci que a gente ia fazer planos e que eu ia ter ciúme até mesmo da ideia de você já ter tido nem que seja um projeto de plano com mais alguém. Esqueci que você, assim como eu, também tem um passado, que terceiros iriam pairar sobre nossas cabeças pelo resto de nossos dias de lua de mel. Esqueci sobre a minha imensa loucura em ter o controle de tudo e a insegurança eufórica de nunca ser suficiente para nada.

A paixão e o sonho cegam a gente e quando acordamos dá vontade de bater em todo mundo, de sair na rua gritando, de chorar as dores em voz alta pra fazer eco e ver se no vexame eu enxergo o quão ridículo é não acreditar no seu amor genuíno, acreditar que o passado que eu tanto teimo em trazer à tona já nem passa perto de perturbar você. Eu fiz tanta besteira na minha vida, e o meu medo de te desapontar é tão grande que eu preciso procurar besteiras na sua vida, pra me desapontar com você e estar mais preparada caso você decida seguir por aí, sem mim.

Eu te amo, sabe? Daquele meu jeito que você reclama, mas eu sei que, no fundo, gosta. Só que o meu amor não é só ternura. Eu sou uma pessoa difícil, daquelas que sente muita raiva e que não leva a vida assim, tão leve. Me mata a ideia de eu não ter feito parte das suas recordações que te dão aquela nostalgia boa que vem misturada com a vontade de poder voltar no tempo. Sufoca o fato de não ter muitas certezas, de que no fundo, apesar de todo o esforço somos apenas dois estranhos tentando conhecer o outro mais que a nós mesmos.

Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia e eu largava qualquer coisa só pra poder falar com você. Hoje, você ainda faz parte das horas mais preciosas do meu dia, muito embora eu tenha plena consciência que eu desperdiço a maior parte delas desacreditando da beleza, da maravilha e do milagre que é, mesmo depois de tantas tempestades fortíssimas, a verdade absoluta do nosso amor.


Nayara Fontenele