É, hoje eu tenho amor. Respiro fundo com as palavras ecoando na mente. Tenho e posso dizer isto sem dúvidas, em voz alta, de olhos fechados e com as mãos no fogo. Mas, fora isso, eu ainda tenho muitos outros problemas – não resolvidos. Problemas realmente sérios. Eu acreditei ingenuamente na lenda infantil repassada pela minha mãe que o amor resolve tudo. Conserta, conforta, alivia, inspira, anima e te guia até o pote de ouro no fim do arco íris. 

A verdade é que a gente se presta ao papel de bobo quando quer acreditar nas verdades absolutas que ouvimos desde criança sobre a lealdade, a amizade, o esforço, a justiça e sempre, claro, o amor. Que ele seria capaz de tirar o peso do emprego que não dá prazer, dos amigos que não são leais, da falta de vontade que às vezes dá de levantar da cama num dia cinza. Mas a gente cresce e aprende que as coisas não são tão fáceis assim e que a culpa acaba não sendo de ninguém afinal. 

Nossos pais perpetuam essa lenda de que o Amor é o grande salvador para nos encher de esperança, afim de que possamos melhorar o universo egoísta e medíocre que é a vida adulta. Quando contamos uma mentira várias vezes e acreditamos nela, torna-se verdade. E eu ainda acredito nessa desonestidade bem intencionada de inspirar novas formas de encarar o mundo. 

Mas a frustração chega, uma hora ou outra. É tanta expectativa na busca pelo amor da vida. É um fardo de responsabilidades que carregamos para depositar na menor demonstração de carinho sincero. E é por isso, exatamente por isso, que a cada dia percorrido, a cada ano encerrado, a cada linha de expressão que surge no rosto, nos avisando que o tempo não para, a frustração só aumenta. 

Eu já vi gente que eu gosto ir embora. Eu já fui embora de gente que me queria por perto. Já chorei por não poder abraçar meu namorado. Já perdi amigos pro tempo e também, mais grave ainda, perdi amigos pra vida. Me fechei na bolha existencial que me impede de manter relações mais próximas com quem me rodeia. Mas também, já sai me doando por aí, de graça, sem criar expectativas. Eu, que já fui muitas, agora sei pouco quem sou. Quanto mais me descubro, mais desconheço. 

Eu queria ser mãe, queria ser mão pra quem precisa; queria não precisar tanto de coisas que, no fundo, não fazem bem pra mim. Queria que o mundo fosse menor, que as distâncias fossem mais fáceis de serem percorridas pra que eu pudesse estar o tempo todo há dez minutos caminháveis de todo mundo que eu gosto. Mas hoje o meu coração está barulhento, está machucado, está se sentindo sozinho (acompanhado). E sinceramente não culpo o amor. A melhor parte de mim, agora recolhida e caladinha aqui dentro, existe graças a ele. O resto acaba sendo por nossa conta mesmo. Chorar por um coração partido é moleza. Caçar o amor da vida é fichinha. Difícil mesmo é chorar a dor da existência e se resolver consigo.