Eu queria ter de volta a minha ingenuidade. Queria ser planta, criança, pássaro, um quadrado. Não quero nunca mais ter essa consciência arrasadora sobre todas as feiuras do mundo e ainda respirar a inconsciência angustiante de tudo aquilo que me aprisiona o peito e tira o sono. Tudo aquilo que eu ainda não sei, mas temo e tomo pra mim como se soubesse há anos.

O temor veio aos dezoito, com a vista escurecida, as mãos trêmulas, a arritmia e as vozes que me diziam sempre o pior. O ônibus capotaria, minha mãe estaria morta, alguém me assaltaria na parada de ônibus. O sangue e os gritos de pessoas atordoadas eram ensurdecedores naquele vão silencioso. O vazio ecoava na mente e transformava-se no monstro prestes a me engolir. O tremor subiu pelo corpo e um aperto no peito me fez contrair na cadeira. O mundo em volta girou e eu, sabe-se lá como, desci no ponto seguinte. Após esse incidente outros vieram, cada vez mais constantes e intensos. Eu gritava e chorava com medo do mundo, do outro de mim, de mim. Medo do que eu não sabia, medo do que talvez nem existisse. Medo de ter medo e não dormir. Medo de ter medo e não acordar do pesadelo que era o medo de existir.

Nada era o que parecia. A realidade e a ficção que minha mente me apresentava tão convincente, se entrelaçavam como uma lente de múltiplos contornos em uma pintura de Cézanne. Só sabe o que é ter medo de verdade quem teve medo do medo, medo do nada. Quem teve síndrome do pânico.

O pânico é sorrateiro. Traiçoeiro ele te pega pelo desleixo e te apresenta o caos dos sentidos. Eu queria a constância de uma vida tranquila tipo a da minha vizinha que lava roupa, prato, o corpo e põe pra secar, sem se importar onde está o marido ou se os filhos vendem drogas. Queria ser a senhorinha que vai a igreja e ora a Santa de não sei das quantas causas pra ter saúde e um bom casamento pra filha. E de tanto querer eu me tornei o ser insatisfeito que vos fala, enxergando sempre além dos próprios sentidos, dando passos maiores e tropeçando nos próprios delírios.

Fui ao médico com minhas queixas, dores e medos de monstros terrivelmente inexistentes, ele me ouviu atentamente, eu estava extasiada por encontrar alguém que não me interrompia com horrorizados olhos esbugalhados. Eu via terror nas nuvens, na rua, em um talher caindo na hora do almoço, nos corredores da faculdade de Fisioterapia. Eu ouvia chacotas e ameaças na mais vã folha branca arrancada de um caderno. Eu tinha medo da morte e terror da vida, estava imobilizada em uma angústia codificada. Ao abrir o olho pela manhã sabia que a tortura começaria. A loucura tem apenas um caminho de ida, um estreito corredor assombrado sem retorno. Quando a realidade é rompida, os lapsos da verdade do mundo são flashs e sonhos. É um alzeimer antecipado.

Só sabe de fato o que é a loucura quem já andou em terras insanas, quem já perdeu partes de si por lá e não voltou para buscar. Eu estava enlouquecendo pouco a pouco. Doutor, como faço pra voltar? Eu quero ser normal! Preciso ser normal! Na minha casa todo mundo é! Minha mãe lava roupa, meu padrasto pega ônibus! O que está acontecendo? Lembrava com saudade da senhorinha na igreja, da vizinha ouvindo Roberto Carlos.

Eu desejava ter casado com meu namorado, me endividado com a compra do apartamento e o financiamento do carro, ter engordado e tido 3 filhos, me tornado uma boa fisioterapeuta, funcionária do SUS, cliente da Diná Cabelereiros e da padaria do bairro. Mas a loucura gritava dentro de mim e se personificava a minha frente em muros, copos de suco e corredores de shoppings.

Até que um dia eu cedi e cheguei a porta de entrada do mundo da loucura. Ouvi uma voz informando que eu tinha escolha e me questionando se eu estava certa daquela decisão. A voz me pedia para avaliar, recordar do meu namorado de tantos anos, da minha mãe que sonhava com uma filha doutora, do futuro simples e normal que eu teria se desse um passo atrás. A angustia e a curiosidade, o medo e o desejo dar um fim a todos aqueles delírios falaram por mim.

Eu podia ter escolhido ser normal Doutor, mas decidi ser louca.

Depois de assumir a minha loucura retornei ao médico, aliviada, feliz e segura de mim. A voz do médico me lembrou a voz no portal dos loucos com suas perguntas prontas instigadoras.

Não se preocupe doutor, eu sei o que estou fazendo. Apesar do seu empenho e diploma, a lógica da loucura só acessa aquele que a vivencia. A angústia vem do não saber de si e hoje eu sei. Sei o que fazer da minha vida. Hoje, eu sei quem sou. A loucura me trouxe a possibilidade de experimentar em mim meu verdadeiro eu. Eu descobri, assumi e não me envergonha: LOUCA, LOUQUINHA DE PEDRA, uma louca que por acaso se descobriu artista.