Há algumas semanas, assustei-me ao ouvir minha mãe dizer, sentada no banco detrás do carro, que estávamos – Há um mês do Natal. Confirmei com o rádio que afirmou em tom melancólico que sim – O ano termina e nasce outra vez. Olhei em volta e quase engasguei. A cidade estava a mesma de todos os dias. As ruas, as vielas escuras e perigosas, nada nem sequer ensaiavam aderir a decoração vibrante de outras épocas. 

Seguindo o trajeto pude perceber que a área nobre da cidade, com seus prédios cinza e os terrenos vazios sem eletricidade postos a venda, também não tinham a vivacidade natalina. As convencionais luzes, as cores, a pressa para os presentes. Nada. Procurei em outdoors com mulheres magérrimas vestindo as ultimas tendências de tons vermelho e branco, panfletos com crianças felizes festejando com as marcas mais caras de brinquedos. Nada. A ansiedade, a busca, a falta, a festa. Nada era semelhante aos Natais de outras épocas.

Pensei comigo, que não se fazem mais Natais como antigamente ou quem sabe eu que não seja mais a mesma de antes. O tempo passa, a gente cresce e a magia dos brinquedos, dos filmes com neve e muitos doces e o velhinho vestido de vermelho, perdem totalmente a graça. E isso não é de todo ruim. Quando a gente amadurece é que passamos a enxergar a verdadeira magia natalina e perceber que tudo aquilo que saltava aos olhos anos atrás é apenas a camada mais supérflua do verdadeiro Natal.

O Natal de antigamente não era feliz. Ao menos não o meu. As pessoas não eram felizes, a cidade continuava um caos, a fome no mundo ainda em alta, a crise financeira, as doenças da mente e do corpo tudo continuava igual. Todos continuavam eternamente cansados, lotados, corridos, ansiosos, endividados e irritados, em lojas com promoções como baratas no calor atrás de sobras, em uma busca incessante por um momento de felicidade e satisfação, ainda que momentâneo.

Hoje com contas a pagar e olhar adulto, percebo que o que realente importa são os detalhes da nossa vida que a correria não nos permite notar. O essencial é realmente invisível aos olhos e a nossa essência mora exatamente naquilo e com aqueles que não ousamos abrir mão. Esqueça a embalagem do perfume, a dedicatória do livro, deixa de lado os pacotes embaixo da árvore! Segure as mãos de quem você ama, dê um abraço de urso apertado na sua mãe. Lave o carro com o seu pai. Cozinhe! 

Reúna todo mundo, faça um piquenique com as primas. Jogue vôlei na rua (sem chinelos como antigamente). Sente na calçada com os amigos, escale uma árvore, pule um muro. Descubra sozinho algo que nenhum religioso, nenhum livro, nenhum culto, ou dogma poderá te ensinar. Encontre o seu método, singular e exclusivo, para voltar a ter fé no amor, a amor por si e pelo outro, descobrindo o valor do que é essencial pra você. 

O cristianismo nasceu de uma belíssima história de amor que se iniciou há muitos séculos. Existe sentimento mais compensador que este? É, eu não sou a mesma de antes. Porque hoje eu acredito magia das coisas, na vibração do mundo, na esperança renovada e no Amor verdadeiro, unilateral. 

Continuo sendo aquela menina que na manhã do dia 25, escova de dente na mão e ansiedade na outra, esperava que um belo presente se materializasse com laços vermelhos na sala de casa. A diferença é que hoje a sua presença é o presente. Não me contento com brinquedos e bonecas, com roupas que nunca são do meu tamanho e livros que nunca vou ler. Hoje, desejo reencontrar seu sorriso e colo quentinho para reviver minhas esperanças de que sim, amar pode dar certo. E dará. Está dando até hoje... vem cá!