"God knows what is hiding
In those weak and sunken eyes
A fiery throngs of muted angels
Giving love but getting nothing back"


A bíblia diz “ama teu próximo como a ti mesmo” e por mais simples e clara que essa afirmação possa ser, levei muito tempo para me dar conta do que de fato significa “amar a si mesmo”. Demorei para aprender que se não nos amarmos e respeitarmos seremos incapazes de um amor verdadeiro pelo outro. Alguns podem pensar que o amor a si é sinônimo de vaidade, egoísmo, arrogância, mas isso é reflexo dos moldes de como educamos as crianças e fomos educados um dia. O amor por nós mesmo não é estimulado, somos criados para atender ao desejo alheio, as expectativas dos pais, dos professores, da sociedade, representar papeis e seguir as ordens dos adultos. É na aceitação do outro que encontramos prazer e nos enganamos que esse é o verdadeiro amor: atender a uma demanda que é do outro, que o outro tem algo que nos pertence, algo que nos falta, algo que precisamos e nomeamos esse algo como “amor”. Nos perdemos de vista e perdemos o milagre que é sermos autênticos, sempre que somos nós. Medo, insegurança, necessidade de aceitação, é assim que se inicia e se desenvolve relações patológicas.  

O amor de verdade não, ele é respeitoso, generoso, solidário e cheio de compaixão. Quem ama a si entre em sintonia com o universo e tudo flui em sua vida. Quem ama cuida, não intimida, não diminui, não ofende, permite que o outro se desenvolva dentro de suas características próprias, ajudando a superar suas dificuldades, estimulando suas potencialidades e a perceber os limites de si, os limites do próximo. Mas não adianta nos dispormos a amar sem receber amor de volta, a cuidar sem sermos cuidados, todo mundo precisa ser acolhido, compreendido, pegue no colo. Não adianta desenvolvermos um sentimento autêntico por alguém que não nos quer com tanto carinho, não nos cuida e não acrescenta em nosso desenvolvimento nesse mundo que já é tão cruel.

Eu acredito intensamente que ninguém entra na vida de ninguém por acaso, todos temos uma missão em cada relação. As pessoas se conectam por um motivo, para produzir algo ao mundo ao a si mesmas, para ensinar e para aprender, para gerar algum benefício para o universo. E eu pensei que você tinha entrado na minha vida com essa missão: para me ensinar lições sobre Deus e sobre o amor, o amor verdadeiro.

Eu achei que com você eu aprenderia a amar, pensei que através do seu amor, do seu cuidado, do seu carinho, eu me libertaria de todos os demônios que me aprisionavam a alma durante tanto tempo. Eu achei que ter você na minha vida auxiliaria na minha evolução enquanto pessoa, me faria olhar pra dentro e remendar tudo que dói e sangra, achei que seu amor me faria uma mulher melhor, que me encheria de bondade, inspiração, alegria. Mas eu me enganei.

Não foram os sentimentos bons que causaram transformações em mim, foram as dores que você causou que me fizeram me encolher no mundo, foi o sofrimento do seu não amor que me fez enxergar que algo estava errado na minha forma de encarar as coisas. Eu desaprendi a inventar significados para os seus silêncios, desculpas para as suas ofensas, respostas para seus sumiços. Eu me encolhi, me escondi, mas eu cresci. Foi no sofrimento que eu aprendi o verdadeiro significado de amar a mim mesma, de levantar do chão, erguer a cabeça, falar mais baixo, selecionar as palavras, refletir. Aprendi a ser honesta comigo, com o outro, a jogar aberto e a questionar sem ofender, discordar sem agredir e a aceitar mudanças, entender que nem sempre as minhas decisões são as melhores pra mim, aprendi a rever conceitos que tinha sobre sentimentos e pessoas e principalmente a rever a ideia que tinha sobre você, sobre nós dois.

Somos adultos agora. Eu não sou mais a menininha assustada em busca de aprovação. Não sou mais a menina que tem medo de perguntar por ser invasiva, que tem medo de questionar por ser chata, medo de pedir pra não parecer carente. Não sou mais a adolescente perdida encantada pelos seus olhos verdes, disposta a tudo e a qualquer coisa, disposta a pagar qualquer preço para ter migalhas dos seus sentimentos. Está na hora de cuidar de mim, cuidar de mim como eu cuidei de você, como faria com nosso filho, como faço com minha mãe. Está na hora de me amar, me acolher, compreender, dizer a mim mesma que tudo bem errar de vez em quando, que todo mundo erra com todo mundo e é normal, que erros e acertos são filhos de um mesmo pai e o primeiro passo para esse aprendizado é o perdão. Perdoar a mim e a você.

Nessa jornada descobri que sou critica demais comigo mesma e frutifico pensamentos ruins e depreciativos ao meu respeito e isso não é bom, faço florescer apenas ervas daninhas em meu jardim e essa atitude tem atraído o que é negativo, o que pesa e o que destrói toda a beleza e a pureza que trago no coração. Entendi que devo compreender meus erros com a mesma ternura que compreendo os erros das pessoas que amo, tenho que sentir por mim a compaixão e o carinho que sinto pelo outro. Preciso celebrar cada mudança, cada vitória, cada acerto, preciso aprender a me alegrar comigo mesma, com minhas conquistas e minhas qualidades.

Eu tenho consciência de toda a luz que trago no peito, toda a bondade que existe na minha alma e principalmente todo o bem que fiz a você. Não, não é mesquinho admitir isso, não é pequeno, não é arrogante, não é errado reconhecer e celebrar nada disso. E principalmente dizer isso pra si mesma ou pra você não é “jogar na cara”. Não, não, não. A gente precisa aprender a lembrar quão bom nós somos, quanto de bem fazemos ao mundo para que possamos nos aceitar e nos amar como somos. Precisamos reconhecer nossos acertos, nos orgulhar de nossas qualidades e focar nos sonhos e potencialidades. É difícil, eu sei, somos educados para retrair tudo isso em prol do florescimento do outro, pelo menos eu fui. Eu tive que me esconder para que o outro pudesse brilhar e além disso, eu tive que ajudar o outro a encontrar o próprio brilho, ser feliz por sua descoberta e sucesso e aceitar apenas o limbo o qual ele me colocava. Agora, tudo que preciso é de um pouco de prática e tempo para me encontrar, me reconhecer, me afirmar, me aceitar e aprender novamente a me amar de verdade. 

Erros com você eu sei que cometi muitos, mas me desculpei de todos e espero que um dia você possa me perdoar por eles, assim como eu te perdoei. Espero que um dia você aprenda que me diminuir não vai te fazer maior, nem melhor, não vai te fazer feliz, não te fazer mais homem, não trás benefícios nenhum. Espero que um dia você aprenda o que hoje eu sei. Espero que um dia você reflita e perceba tudo que fiz por você, quem sou de verdade e o quanto eu te amei, te cuide, te acolhi, te zelei, o quanto ajudei você a ser quem você é hoje, quanto eu acreditei e apoiei você, seus sonhos, suas potencialidades. Espero que um dia toda essa energia do bem que passei pra você possa clarear a sua mente e iluminar suas ideias, para que você enxergue o que eu enxergo hoje, o que Deus sempre soube ao meu respeito e a respeito do meu amor por você.

Espero que um dia você possa entender o real significado de ser cristão, de amar ao próximo, de amar a si mesmo. E se ainda nesse dia você perceber que não me ama, que nunca me amou, que nunca foi de verdade pra você, que você possa aprender que pessoas ajudam pessoas, que nós todos temos direito ao amor, assim como temos direito de respirar, apenas por existirmos. O amor não lhe é dado apenas por comportamentos condicionados, o amor é dado por você ser você e foi esse o amor que eu te dei.


E quando esse dia chegar e você lembrar de mim, não precisa se preocupar eu vou estar bem. A garota boba, de coração mole e lágrimas fáceis vai estar bem, distribuindo amor por ai.