Quando eu era criança e ainda tinha uma relação estável com meu pai escrevia histórias em uma máquina de datilografia. Era uma máquina gigantesca, bastante pesada, com teclas profundas e capa laranja. De vez em quando enganchava o dedo ao pressionar os botões para surgirem as palavras. Machucava, é fato, mas encantava. Sentia-me extasiada em poder ver a minha frente o que até então só estava na mente.
Sempre fui fascinada por máquinas de datilografia, na casa do meu pai haviam várias delas. Ele e os irmãos tinham uma tipografia e eu, sempre que podia, fazia questão de me sujar com graxa ao tentar confeccionar meus próprios cartões. Escrevia com orgulho em letras garrafais: 

NAYARA FONTENELE
ESCRITORA DE HISTÓRIAS

Fontenele, o sobrenome escolhido. O sobrenome amado que dava força, significado e peso a minha existência. O sobrenome que havia herdado do meu pai, assim como o talento para as letras, a veia artística e a habilidade hermenêutica, bem como tudo que sou hoje. Quando era impedida de usar as máquinas da tipografia, devido alguma encomenda ou porque tinha de estudar, apelava para caderninhos da Tilibra com fotos de adolescentes que me lembravam os atores da série Power Ranger. Comprava às escondidas na mercearia do bairro e mandava pôr tudo na conta do meu pai. Ele me financiava e inspirava. Professor de Português na época, me fazia querer ser que nem ele: Bom argumentador, criativo, brilhante, poético. Queria poder escrever e dar aulas sobre meus livros. Queria um dia poder viver de escrever apenas.
Meu amor pelas palavras surgiu bem nessa época. Lembro-me de ser oradora de turma na alfabetização e ler o discurso comprometido dos “Doutores do ABC”, qual hoje faz tanto sentido. Foi só aprender a ler e a escrever que conquistei minha liberdade. Passei a criar meu próprio universo, realidades paralelas com personagens diversos que eram todos partes de mim, expressando faces do meu eu até então desconhecidas. Meus textos eram o lugar seguro onde eu podia existir sem me preocupar. Onde eu podia me experimentar e construir. 
Escrevia minhas fantasias, personagens e dramas, no fim de semana pedia autorização para transcrever tudo em papel ofício. Na realidade, era apenas uma desculpa esfarrapada pra fazer uso das tais máquinas que eu tanto admirava e enfim produzir meu próprio livro. Folha por folha, palavra por palavra, milimetricamente pensado, digitado, amado e lido. Sim, lido! Apresentar minhas histórias ao meu pai era um orgulho. Ele lia e ria de minhas invenções questionando sobre os diálogos, personagens e contextos. Eu argumentava de volta, defendia meu ponto de vista, convencia-o que aquele era o melhor final. Ele, mesmo sem saber, treinou minha persuasão e aperfeiçoou os meus talentos. 
Meu pai admirava-se mostrando meus escritos a terceiros, quartos, quintos, tios, vizinhos, o dono da mercearia dos cadernos e o pessoal da escola. Minha imaginação era fértil, eu era brilhante, prodígio, autodidata. – Como uma menininha dessa idade consegue produzir desta maneira? – Eu não sei, ninguém sabia. Acho que a única explicação cabível seria o amor pelas letras, pela arte, pela fantasia e claro pelo meu pai, minha eterna inspiração. Todos se divertiam e diziam “Esta será uma grande escritora, veja isso 7 anos (...)”. E eu era feliz. Até que um dia, eu matei minha princesa.
O nome da Princesa era Pillar e seu drama de princesa era como qualquer outro drama de princesa comum. Nada demais. Acho sinceramente, que os adultos daquela época não estavam preparados para lidar com o fato de uma criança possuir tamanha percepção aguçada do mundo. O desfecho do drama da Princesa Comum surpreendeu a todos, pois com intuito de se libertar das amarras familiares, do príncipe que lhe abandonara, da mãe egocêntrica e manipuladora, das brigas por terras que a família vivia e do abandono do pai, jogou-se da torre mais alta de seu castelo. Feliz por voar. Feliz por enfim poder sossegar. – Suicídio, escolha poética ou patética? – Era uma provocação. A princesa do meu romance assustou muita gente, mas para mim ela era apenas uma Princesa Comum, como tantas por aí, como eu por aqui, como a parte de mim que sofria como as Princesas que sofrem por falta de amor.  
Lembro como se fosse hoje meu primeiro acompanhamento psicológico, eu não entendia porque aquela moça me retirava da sala de aula pra conversar enquanto eu perdia a matéria da prova. Não tinha o direito de me opor, apenas acatava o que me era dito. Após as conversas com ela, me levaram pra conversar com outras moças e depois outras e depois mais outras. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas passaram a me forçar a fazer o que não gostava. Tive de cair inúmeras vezes tentando aprender a andar de bicicleta, subir em árvores, fazer balé e natação. Meu pai, que já não aparecia mais todo fim de semana, cancelou a minha conta de cadernos na mercearia, esse foi o fim, meu e de Pillar. No fundo eu sabia, tudo era culpa da tal Princesa morta. Quanto alarde!           
Durante os anos que se passaram conversei com várias mulheres, tipo aquelas da escola, sempre a mesma história, sempre sobre minha vida. Eu não entendia o motivo, mas decidi parar de escrever, pois aquelas mulheres que conversaram comigo se interessavam pelas minhas histórias, então era mais fácil contar para elas, elas me entendiam. Durante muitos anos elas prenderam minha atenção e viraram o centro de minhas observações. Já que não podia mais escrever sobre princesas eu conversava sobre elas e as mulheres (minhas novas amigas) pareciam gostar.           
O tempo passou. A tipografia fechou. Meu pai se afastou. Não tínhamos mais muito em comum, ao invés de palavras agora conversávamos sobre números. Ao invés de textos conversamos sobre contas. E a única argumentação era sobre os presentes que eu gostaria de ganhar, o vestibular e o meu futuro.                  
Não sei o porquê voltei a escrever, acho que no fundo é a forma mais sincera e verdadeira de amar você pai. Essa é minha maneira de te falar o quanto você existe em mim. Continuo contando a estória de uma Princesa Comum e seu mundo desordenado, tendo a certeza de que um dia, quando os adultos estiverem preparados para isso, entenderão a minha mensagem. Quem sabe um dia você vença e eu mude o desfecho da nova Princesa. Quem sabe assim volte a se orgulhar de mim, volte a acreditar no meu sonho que era nosso sonho.
            Enquanto esse dia não chega deixo esse rascunho sobre a história da Princesa, que é pra vocês lerem, pois só nós que somos crianças conseguimos entender.