O primeiro erro que alguém pode cometer ao se relacionar comigo é se apaixonar antes de me conhecer, depositar sentimentos e sensibilidades antes de ter certeza de que eu valho a pena. Quer um conselho? Eu não valho nenhum pouco a pena. Isso mesmo. A paixão é cega, é um pathos como diriam as ciências humanas, uma droga alucinógena fabricada a base de idealizações, esperança e amores que inventamos (quer mais letal que isso?), todos esses ingredientes usados indiscriminadamente sem as precauções cabíveis, tornam-se o primeiro passo de um fiasco desmedido. Porque quando a realidade dá as caras meu bem, ninguém é tão amor infinito quanto se espera. 

Mulher alguma dá conta de ser tão linda, culta, equilibrada e boa de cama quanto o outro pensa. Tão livre do ciúme quanto da tpm. E após alguns meses quando a realidade vem a tona ainda somos forçadas a prestar contar pelas expectativas não correspondidas que não são nossas. Todo relacionamento é um contrato simbólico e quando o pacto de intenções não é verbalizado, as pessoas sofrem pelos "não ditos" e apontam o dedo pro parceiro culpando-o pelo fiasco da relação. "Cadê a mulher perfeita, linda, paciente e carinhosa que eu conheci?". A realidade é que talvez essa mulher nunca tenha existido, a não ser na sua fértil imaginação! 

Esse texto poderia ser parte da minha auto-biografia premeditada. Coisas que podemos escrever antes que elas aconteçam, pois inevitavelmente vão acontecer. Eu nunca consegui ser tão boa companhia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão culta quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão descolada quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão assídua na academia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão dona da minha própria vida quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão bem resolvida quanto pensavam que eu fosse. 

Talvez eu passe uma imagem errada de mim. Não sou metade da cabeça pensante que pareço, não tenho metade da empolgação pra malhar que já tive, não me viro tão bem sozinha quanto digo que me viro, não gosto tanto assim da minha própria companhia quanto eu digo por aí. Sou chata mesmo e tem hora que nem eu me agüento. Sou extremamente simples, caseira e cheia de manias estranhas (como ouvir Sandy e dançar no meio da rua). Faço coisas “de homem” como trocar chuveiro, pintar a parede e consertar descarga em pleno feriado. 

Já se apaixonaram por mim diversas vezes e, ainda assim, continuo solteira. Cada vez mais, quero que não se apaixonem por mim, afinal não vou ser metade da fantasia de alguém. Nem tento. Já vou dizendo logo quem sou, pois meu negócio é a realidade. Não tenho mais idade pra namoros adolescentes ou pra me interessar por viver uma ilusão. Todos que se apaixonaram por mim me fizeram sofrer no final. Queriam que eu fosse alguém que eu não sou pra eu corresponder a uma expectativa que não fui eu que criei. 

Eu não pareço, nem de longe, a garota da camiseta molhada da revista. Eu não tenho vocação (nem ausência de vergonha na casa o suficiente) pra andar de shortinho enfiado. Nunca vou colocar silicone e meus peitos vão continuar do jeito que eu gosto que eles sejam. Nunca vou achar normal traição e meu conceito de traição inclui trocar telefone (ou outro meio de contato) com uma mulher na balada. Nunca vou deixar solto quem eu amo. Minhas verdades mudam com o tempo, meus valores não. O que alguém acha de mim não vai determinar quem eu sou. Mesmo assim, não vou discordar quando alguém achar que eu não valho a pena. Eu valho. Eu valho a pena se tentarem me amar ao invés de se apaixonarem por mim.