Me perguntam por que parei de escrever, pra ser sincera, nem eu mesma sei. Talvez eu saiba o espírito que me tomou e fez produzir os textos que conhecem, mas quando ele vai embora, não me deixa carta de despedida. Eu apenas amanheço sem o decodificador de sentimentos e um embrulho no estômago, a má digestão do sentir tomando conta de minha existência. Não existe sal de frutas pra sentimentos não ressignificados, não existe pílula que desfaça nós na alma, então eu travo.

Não sou intelectual ou linguista. Não escrevo pra produzir arte ou literatura, acredito que boa parte da minha disposição em expor minhas letrinhas é fruto de um espírito juvenil que exala prepotência sem intencionalidade, a qual acha de tudo sabe, que de tudo já viveu. Sou bipolar assumida, daquelas que sente tudo e não entende muito, escrever é minha forma de exorcizar meus demônios, dar lógica, propor o sentido. É minha forma de me conhecer. Por isso escrevo, é através da linguagem que organizo minha existência.

Desde o início da vida, pensei o amor como um encontro entre dois seres que estão de peito aberto e alma limpa prontos a se conectar. Tratava-o com tanta simplicidade e propriedade, com tanta leveza. O amor pra mim deveria ser leve, limpo, fácil e colorido como bolhas de sabão sopradas ao ar por uma criança inocente. Um dia meu peito se abriu e eu encontrei o amor. Com simplicidade brinquei, sonhei, me entreguei e senti. Sofri. Calei. Morri. Parei de escrever.

Até que eu decidi voltar pra contar o que acontece depois. Depois que o amor morre e renasce. Pra contar sobre o Amortecimento em mim.