Então eu parei e quis dizer uma coisa bonita na frente do espelho, na frente de mim mesma e daquela pessoa de cabelo comprido que eu não conhecia, que eu olhava fixo dentro dos olhos e tinha certeza absoluta que não fazia idéia de quem era. Eu quis dizer uma coisa bonita pra que todas as coisas ruins que estavam acontecendo comigo - e com ela - naquela hora, fossem embora junto com as lágrimas de raiva e frustração que eu e ela derramávamos na frente do meu espelho enfeitado.

Eu já não era eu mesma e as horas iam passando depressa enquanto o tempo perdido se acumulava dentro de mim sem volta. Mas, aos poucos, fui percebendo que não adianta acumular a dor, não adianta pôr a cabeça pra fora na chuva e, ao invés de lavar a alma, pegar um resfriado e ficar a semana toda de cama. A minha cabeça repetitiva até quis sofrer mais um pouquinho as mudanças, pra ser poética, mas eu decidi que, dessa vez, eu seria sucinta porque, dessa vez, era pra mim, só pra mim, sem segundas e terceiras pessoas espalhadas pelos cômodos da minha vida.

Tinha que ser bonita porque todas as coisas ao meu redor andavam feias demais para me servirem de consolo; eu nunca gostei de imaginar que pra um fracasso meu, haveria de ter um consolo. Mas havia, porque sempre há alguma coisa que se salva quando o mundo resolve ser caos e você não quer bagunça naquela noite. Analisar a vida e os problemas que vêm com ela poderia até ser uma tortura chinesa que eu vivia dizendo não querer me submeter. Mas a verdade é que quem fala muito sobre uma coisa, ainda mais a quatro ventos, não pode estar fazendo outra coisa se não analisar.

Exibicionismo nenhum do mundo, mostra feridas que vão despertar tantos outros sentimentos que não inveja. 

A vida bateu na minha cara, muitos dias seguidos, sem poesia nenhuma que era pra me deixar sem vontade alguma de abrir os olhos. Só que os olhos são meus e cabe a mim saber até onde é bom enxergar, mesmo que sejam só coisas ruins que não vão me dar o sorrisinho fake que eu tenho que carregar todas as manhãs, no meio dos idiotas engomados que habitam este planeta. A verdade da história é que, por mais dura que as coisas pareçam ser, sempre vai haver alguma maciez nos subtítulos da vida de alguém que intitula todas as coisas pra não se sentir sozinha quando todos os acompanhantes vão embora para ter uma vida mais cheia de graça além da nossa.

E a solidão tem sim, embutida nela, as coisas ruins que tanto se comenta e não existe como não participar do consenso. Mas esquecem de contar que todos os questionamentos que vêm junto, quebram a idéia de felicidade utópica que, não, não existe e, por isso, machuca muito querer tanto. Não eram as segundas feiras de manhã, as sextas à noite e, tampouco, os domingo à tarde que fariam de mim uma mulher extravasada de ódio e nem menos capaz de amor. 

Assim como tudo na vida, amores e amigos vêm e vão e, fico aqui perguntando baixinho, quem sou eu então pra decidir que os meus não deveriam mudar? 

Um dia, em algum dos passados que já foram contados aqui, ali e acolá, ela resolveu que seria uma mulher descritiva. Contou cada peculiaridade das coisas estranhas que sentia, que fazia sentir. Ela chorou as mágoas em público e abriu caminho para muitas outras delas entrarem, numa metástase confusa de quem sofre por opção de não ter a opção de ver o espetáculo parar.

Alguns se vão por vontade própria. Outros, são convidados a se retirar. E ela passa a vida descrevendo as coisas que tantos sentem através dela, se tornando ela mesma, a mais frígida das mulheres perante seus próprios sentimentos.