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Hoje recebi uma visita inesperada, que não aparecia há tempos. Em uma passagem rápida e modesta, típica de quem não precisa de muito para se fazer notar, me entorpeceu com sua presença, tempo suficiente de o sinal abrir, a crise passar, a vida andar e eu precisar seguir, sem me despedir.

Dizem por aí que quando seu coração quebra o mundo não espera você o consertar. Dizem que quando sua mente adoece é apenas a seleção natural fazendo seu trabalho, eliminando os mais fracos. Durante muito tempo botei fé nessa assertiva e tentei tocar a vida enquanto juntava os caquinhos. Hoje tenho dúvidas - Será que o mundo não dá uma leve brecada quando parte do sistema entra em um blackout? Dizem por aí que somos descartáveis como latinhas de cerveja, substituíveis e substituídos. Mas esquecem que além disto somos carne, ossos, desencontros e desejos, juntos formamos essa massa desenfreada que faz o mundo girar. A desresponsabilização do outro – sociedade, cultura, ex-filhos-da-puta e etc...- em nosso sofrimento, é covardia da mais pura, da mais descarada.

Eu, amiga intima da solidão, que já sofri todas as melancolias possíveis de um coração solitário, pensei que já tivesse passado por tudo nessa vida. Engana-se aquele que, assim como eu, acredita que chorar as dores de um coração solitário é o maior de todos os males. Hoje eu sei que chorar as dores de um coração acompanhado é ainda pior. Coração acompanhado, vida vazia. Não tenho uma vida ruim e nem tenho muito do que reclamar, apesar de fazê-lo para não perder o hábito. Tenho conforto, carinho, segurança, sexo e até uma grana legal pra se viver bem, mas o coração (traiçoeiro que só ele) sangra sem pestanejar a cada sinal de trânsito que se fecha, a cada madrugada que urge como um monstro feroz em seu silêncio abissal. E sabe o porquê? Nós fugimos de um encontro autêntico conosco.

Buscamos qualquer um, qualquer coisa, qualquer música, riso fácil, bebidas, doces e caminhadas no shopping para não nos depararmos com o que guardamos dentro do peito. Para não sermos descartados pela seleção natural, pelo mercado de trabalho, pela sociedade capitalista, o namorado ou grupo de amigos. Pelo menos comigo é assim. Nós fugimos dessa visita inesperada que é tão letal e reveladora. Por isso que não gosto de dirigir sozinha, tenho verdadeiro pavor!

Durante todas as horas absurdamente apertadas do meu dia tenho a vida lotada de gente. Vozes ensurdecedoras contando novidades apressadas, cobranças angustiadas e amores desencontrados. Em casa, no trabalho, na aula é sempre a mesma rotina, as lamúrias que tanto me roubam de mim e que aliviam a vida, impedindo que o coração ouse a se manifestar. Cuidar do outro é a fuga mais nobre que pensei que poderia conseguir na vida. E eu sigo, fugindo de mim, sem encontro marcado comigo, até ser pega de surpresa.

Ao chegar em casa, no silêncio do quarto, as redes sociais me carregam e ocupam a mente. Sei onde minhas amigas jantaram e com quem. Sei quem comprou look novo e postou no Instagran, quem foi abandonada pelo namorado e quem arrumou um paquera novo. A alma e o coração ocupados, cumprindo agora a agenda social, até que eu desfaleça de sono. Adormecida eu não sinto mais nada e me entrego ao universo onírico. O grande desafio pra mim é e sempre foi o trânsito, o congestionamento, o sinal vermelho, a fila que não anda, as músicas que não mais distraem. É nesse momento que eu, vacilante, me entrego a mim.

Todas as minhas crises de pânico ocorreram no trânsito e essa não poderia ser diferente. Após meses fugindo da minha dor, após anos inteiros sem sentir um arrepio de ansiedade sequer, a síndrome estava ali latente novamente, poderosa, pedante em sua arrogância, cruel e como sempre tão verdadeira.

Ela chega sorrateira com uma inquietação nas mãos, um formigamento no corpo, uma palpitação no coração. Gotículas de suor gelado brotam da testa e enfim a ameaça iminente de morte e o urro desesperador de medo se manifestam. Medo, muito medo. De que? Eu não sei. Medo da vida, medo da morte. Medo de não conseguir, medo de conseguir e não saber mais o que buscar. Conseguir o que? Não se sabe. Conseguir tudo, conseguir nada. Medo de perder. Medo de si. Medo de quem você se tornou, de quem se tornará, de não saber quem é. Medo, muito medo.

Medo e também uma certeza absurda. Certeza de ser assaltada por um ladrão vacilante que aparecerá instantaneamente do nada. Certeza de um engavetamento, de um capotamento, de um incêndio, um tiro no olho. Certeza de que a morte está ali à espreita e prestes a te pegar. Certeza do absurdo, de uma alucinação, de um delírio. O cenário urbano ousa desaparecer em meio a um quase desmaio, mas o corpo enrijecido e com os músculos doloridos de tão tensionados, impedem. Medo. Certeza. Morte. Eu e ela, novamente, me fazendo uma visita. O real e o imaginário, fundem-se em um sinal vermelho.

Por isso eu não dirijo sozinha, não vivo sozinha, não fico sozinha um minuto sequer. Talvez o pânico seja a resposta do meu corpo dizendo “Não se preocupa Eni, entendemos que você não quer ficar sozinha, apagamos você antes que isso aconteça”. Talvez ele queira me ajudar.

Hoje eu tive uma visita inesperada e chorei por você. Chorei por mim, pelo nós que não existe mais, pela guerra diária que travo comigo fugindo do sentido que só você e eu fazíamos juntos. Pela inexistência do eu, depois do nós. Depois de você eu nunca mais soube quem eu era e nem desejo saber porque o meu eu autêntico apenas você conheceu e sabe, trazê-lo de volta a vida seria ressuscitar o nós, quem fomos e o que seríamos. Ser eu novamente, de verdade e por inteiro seria ser sua de novo. A minha solidão e o meu silêncio eu só divido com você.