Ele tirou a bermuda e eu reconheci o ritual. Passeou pelo quarto devagar contornando a cama para ir ao banheiro. Sorte da vizinha voyerista do prédio da frente, que pode observar a tudo de graça através do janelão escancarado do qual eu sempre me escondo. Homem calorento não gosta de transar em quartos fechados, mulheres com rinite não conseguem gozar no ar-condicionado. Saldo pra quem assiste ao vivo. Azar o meu que preciso de mais cálices de vinho pra me soltar ou ainda dolorosamente abrir mão de ficar por cima.

Ele gosta, eu sei que gosta. Dá uma paradinha charmosa e acende um cigarro. Mapeio os músculos de suas costas que formam um coração quando ele estende os braços pra alcançar a cortina. Ele me olha com uma cara sacana dizendo com os olhos pra eu esperar só mais um pouquinho enquanto ele dá uma no banheiro pra demorar mais e me esperar gozar. Homens são vaidosos quanto ao tempo do sexo, demoram não por necessidade ou satisfação do cliente, mas sim por puro narcisismo em poder exibir depois a quilometragem. Eu sorrio conivente, respondendo mentalmente que sim, eu espero. Por aquele corpo em cima de mim, por aquele sorriso malicioso, por todos os “aqueles” que ele traz consigo, eu esperaria uma década, esperaria o que fosse necessário. Quem fode, fode, espera quem tem tesão, e ele cavalheiro, não demora. No banheiro é claro. Começamos antes da novela das 8, a noite prometia ser longa. De longe eu avistava a logo do plin plin estampada na TV da varanda da vizinha.

Amanheci e corri para o box. Enquanto a água caia fritando a minha carne e o resto de cabelo que ainda me sobraram da noite anterior, pensei seriamente que poderia ser ele o tal do homem da minha vida. Ele era cavalheiro, gentil, bom de cama e a julgar pela organização do seu cesto de roupa suja, um homem de responsabilidade. Decidi aceitar a carona pro trabalho qual ele sempre me oferecia quando dormia ali, quem sabe esse não fosse o início de uma rotina de idas ao trabalho depois de noites de sexo? Quem sabe casais vivessem grandes histórias de amor depois de a mocinha ter recusado o taxi?

O elevador estava vazio e nós continuávamos calados. O Cheiro bom que vinha do pescoço dele inundava as paredes grossas e me entorpeciam o nariz. Estávamos atrasados, mas ele mantinha-se calmo. Seu carro era tão limpo que daria inveja na minha faxineira, nem minha farmacinha de remédios na área de serviço estava tão em ordem. Saímos do prédio e o congestionamento já estava na porta, a fila dupla com carros reluzentes que não andava, não pareceu aborrecê-lo. Do portão do outro prédio também saiam carros enfileirados a espera de uma vaga na rua. A nossa frente estava um Renault Duster de vidros levantados. Como quem não quer nada ele passou a me beijar a nunca e aumentou um pouco o som. Em poucos minutos minha cabeça já estava embaixo da direção e entre suas pernas. Com ele sempre era assim, ele levava embora o meu bom senso e só me restava uma onda de tesão descontrolada. Me perdi no tempo e fui trazida de volta por buzinas que vinham da rua, ao levantar a cabeça percebi o havia acontecido. De dentro do Renault uma cabeça aloirada pregava-se no vidro. A vizinha voyer nos observada atentamente, apesar do sinal aberto!