segunda-feira, 4 de junho de 2018

Visita Inesperada!

junho 04, 2018 1 Comments


AvisosO texto fala sobre síndrome do pânico, pode conter gatilhos mentais! Se você for sensível ao tema, não leia.

Hoje recebi uma visita inesperada, que não aparecia há tempos. Em uma passagem rápida e modesta, típica de quem não precisa de muito para se fazer notar, me entorpeceu com sua presença, tempo suficiente de o sinal abrir, a crise passar, a vida andar e eu precisar seguir, sem me despedir.

Dizem por aí que quando seu coração quebra o mundo não espera você o consertar. Dizem que quando sua mente adoece é apenas a seleção natural fazendo seu trabalho, eliminando os mais fracos. Durante muito tempo botei fé nessa assertiva e tentei tocar a vida enquanto juntava os caquinhos. Hoje tenho dúvidas - Será que o mundo não dá uma leve brecada quando parte do sistema entra em um blackout? Dizem por aí que somos descartáveis como latinhas de cerveja, substituíveis e substituídos. Mas esquecem que além disto somos carne, ossos, desencontros e desejos, juntos formamos essa massa desenfreada que faz o mundo girar. A desresponsabilização do outro – sociedade, cultura, ex-filhos-da-puta e etc...- em nosso sofrimento, é covardia da mais pura, da mais descarada.

Eu, amiga intima da solidão, que já sofri todas as melancolias possíveis de um coração solitário, pensei que já tivesse passado por tudo nessa vida. Engana-se aquele que, assim como eu, acredita que chorar as dores de um coração solitário é o maior de todos os males. Hoje eu sei que chorar as dores de um coração acompanhado é ainda pior. Coração acompanhado, vida vazia. Não tenho uma vida ruim e nem tenho muito do que reclamar, apesar de fazê-lo para não perder o hábito. Tenho conforto, carinho, segurança, sexo e até uma grana legal pra se viver bem, mas o coração (traiçoeiro que só ele) sangra sem pestanejar a cada sinal de trânsito que se fecha, a cada madrugada que urge como um monstro feroz em seu silêncio abissal. E sabe o porquê? Nós fugimos de um encontro autêntico conosco.

Buscamos qualquer um, qualquer coisa, qualquer música, riso fácil, bebidas, doces e caminhadas no shopping para não nos depararmos com o que guardamos dentro do peito. Para não sermos descartados pela seleção natural, pelo mercado de trabalho, pela sociedade capitalista, o namorado ou grupo de amigos. Pelo menos comigo é assim. Nós fugimos dessa visita inesperada que é tão letal e reveladora. Por isso que não gosto de dirigir sozinha, tenho verdadeiro pavor!

Durante todas as horas absurdamente apertadas do meu dia tenho a vida lotada de gente. Vozes ensurdecedoras contando novidades apressadas, cobranças angustiadas e amores desencontrados. Em casa, no trabalho, na aula é sempre a mesma rotina, as lamúrias que tanto me roubam de mim e que aliviam a vida, impedindo que o coração ouse a se manifestar. Cuidar do outro é a fuga mais nobre que pensei que poderia conseguir na vida. E eu sigo, fugindo de mim, sem encontro marcado comigo, até ser pega de surpresa.

Ao chegar em casa, no silêncio do quarto, as redes sociais me carregam e ocupam a mente. Sei onde minhas amigas jantaram e com quem. Sei quem comprou look novo e postou no Instagran, quem foi abandonada pelo namorado e quem arrumou um paquera novo. A alma e o coração ocupados, cumprindo agora a agenda social, até que eu desfaleça de sono. Adormecida eu não sinto mais nada e me entrego ao universo onírico. O grande desafio pra mim é e sempre foi o trânsito, o congestionamento, o sinal vermelho, a fila que não anda, as músicas que não mais distraem. É nesse momento que eu, vacilante, me entrego a mim.

Todas as minhas crises de pânico ocorreram no trânsito e essa não poderia ser diferente. Após meses fugindo da minha dor, após anos inteiros sem sentir um arrepio de ansiedade sequer, a síndrome estava ali latente novamente, poderosa, pedante em sua arrogância, cruel e como sempre tão verdadeira.

Ela chega sorrateira com uma inquietação nas mãos, um formigamento no corpo, uma palpitação no coração. Gotículas de suor gelado brotam da testa e enfim a ameaça iminente de morte e o urro desesperador de medo se manifestam. Medo, muito medo. De que? Eu não sei. Medo da vida, medo da morte. Medo de não conseguir, medo de conseguir e não saber mais o que buscar. Conseguir o que? Não se sabe. Conseguir tudo, conseguir nada. Medo de perder. Medo de si. Medo de quem você se tornou, de quem se tornará, de não saber quem é. Medo, muito medo.

Medo e também uma certeza absurda. Certeza de ser assaltada por um ladrão vacilante que aparecerá instantaneamente do nada. Certeza de um engavetamento, de um capotamento, de um incêndio, um tiro no olho. Certeza de que a morte está ali à espreita e prestes a te pegar. Certeza do absurdo, de uma alucinação, de um delírio. O cenário urbano ousa desaparecer em meio a um quase desmaio, mas o corpo enrijecido e com os músculos doloridos de tão tensionados, impedem. Medo. Certeza. Morte. Eu e ela, novamente, me fazendo uma visita. O real e o imaginário, fundem-se em um sinal vermelho.

Por isso eu não dirijo sozinha, não vivo sozinha, não fico sozinha um minuto sequer. Talvez o pânico seja a resposta do meu corpo dizendo “Não se preocupa Eni, entendemos que você não quer ficar sozinha, apagamos você antes que isso aconteça”. Talvez ele queira me ajudar.

Hoje eu tive uma visita inesperada e chorei por você. Chorei por mim, pelo nós que não existe mais, pela guerra diária que travo comigo fugindo do sentido que só você e eu fazíamos juntos. Pela inexistência do eu, depois do nós. Depois de você eu nunca mais soube quem eu era e nem desejo saber, porque o meu eu autêntico apenas você conheceu e sabe, trazê-lo de volta a vida seria ressuscitar o nós, quem fomos e o que seríamos. Ser eu novamente, de verdade e por inteiro seria ser sua de novo. A minha solidão e o meu silêncio eu só divido com você.



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Amor, a contínua ressignificação!

junho 01, 2018 1 Comments




Primeiro a gente chora, grita para o mundo inteiro saber da nossa dor, arruma confusão, esperneia, ameaça, sente ciúmes, sente medo, impõe presença, faz chantagem. Ainda com todo o desgaste físico e emocional, a dor, a lembrança, a saudade, o amor continuam dentro do peito. Você não dorme, não vive, não come, não existe, a sua essência foi sugada e o sonho acabou. 

Em seguida a gente pergunta o porquê. Tenta resolver, propõe soluções e acha culpados. A gente fica intimidada, encolhida, inquieta, sente raiva de si e do mundo. A gente sente saudades, sofre, quase morre, entra em depressão, engorda horrores e por conta disso se enfurna em casa. A gente escreve textos em blogs internet afora, chora rios de lágrimas de profunda angústia. A gente lê um monte de bobagem sobre autoestima, búzios, tarô, runas, simpatias, energia, vidas passadas. Qualquer um, qualquer coisa por favor me dê esperanças, qualquer coisa que traga de volta o cheiro, o toque, o amor, a essência. Mas apenas a ausência se manifesta.

Depois a gente espera, deposita as últimas fichas de esperança no tempo. O tempo é a promessa de felicidade que vencerá a saudade trazendo uma nova vida, que misteriosamente baterá a sua porta a qualquer momento. Enquanto isso a dor continua, a lembrança está lá, ambas intactas, imponentes... Únicas. 

Após atravessar todas as fases do fim é que a gente percebe que elas são essenciais para recompor nossa essência destruída e nos ensinar algumas verdades, mesmo que passageiras, sobre a vida, as pessoas e as relações. No fim de tudo é que a gente percebe que se uma pessoa não te trata da forma que você merece, algo está errado nas suas escolhas, pois ser feliz no mundo efêmero que vivemos é escolher certo.

Depois é só alegria, o choro cessa, o sorriso volta, o peito se abre e um novo olhar aparece, um outro cheiro te conquista e um abraço forte novinho em folha te acolhe. O seu amor, cansado, surrado, melancólico, infeliz e desprezado renasce mais lindo e revigorante em um novo sorriso. De repente você olha pra trás e tudo faz sentido. Você percebe enfim que só sabe a mulher maravilhosa que você é aquele que se permite te amar. Aqueles que te abandonaram só se deparam com esta realidade ao perderem o seu encanto de vista. Mas não adianta dividir a vida, os sonhos, o carinho, o amor com alguém que desconhece a beleza de se viver a dois, a leveza do seu sorriso, a sinceridade das suas palavras, a nobreza dos seus atos, não é mesmo?

Você percebe finalmente que as dores existem para serem ressignificadas, os não amores para serem esquecidos e a felicidade pra ser celebrada, de preferência bem acompanhada. Descobri isso a caminho da praia, de férias e com o banco do passageiro ocupado. Cansei de chorar por um amor renegado, bandido e pedinte sobrevivendo a migalhas. Quem sabe o sol, o mar, o calor e o novo abraço gostoso que encontrei pra me aconchegar sejam o primeiro passo de uma nova fase de mim.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Carta ao meu ex melhor amigo

maio 29, 2018





O que dói mais, perder um grande amigo ou um grande amor? Amor é aquela tempestade tropical que te fez zerar o estoque de batata springs e nutela do supermercado pra ficar trancada em casa esperando tudo acabar. Mas vamos combinar que amizade tem também um pouco de amor no contexto. Se tornar amigo de alguém também tem algo a ver com paixão, lealdade e companheirismo. A gente busca alguém que estará do nosso lado quando o amor da nossa vida for embora, quando você estiver sem rumo, sem saber que caminho seguir. Mas a gente também aprende a duras penas que amigos vem e vão, muito embora alguns fiquem presos naquela parcela de passado que nosso cérebro é incapaz de esquecer.

E foi assim que eu parei de escrever. Foi depois de perder o meu melhor amigo que tudo travou aqui dentro, fiquei em um looping atemporal onde ele estava presente em tudo, mesmo tendo ido embora há tempos.

O meu processo de criação é mais ou menos isso, eu acordo de madrugada e minha cabeça fala comigo. Conta uma história sem meio, sem fim é um pouco sem nexo. Sento no computador e horas após isso, lá está ele. Um novo texto, profundo, sofrido ou escrachando essa pouca vergonha que a gente chama de vida. Depois que ele se foi houve um blackout dentro de mim, sempre que eu sentava aqui pra escrever um texto, era nele em quem eu pensava o tempo todo.

Hoje eu vou escrever um texto sobre amor, daqueles bem sofridos. Hoje eu vou escrever umas sacadinhas escrotas sobre homem babaca e seus papos batidos. Hoje vou escrever sobre como panetone trufado pode mudar sua vida, e nada, nada acontecia. Então hoje, eu decidi escrever sobre ele, o meu paradoxo de descontinuidade. Aquele que não é mais, sempre sendo, mais um cara que eu amei e foi embora. Mais um cara que desconsertou tudo dentro de mim e que até hoje eu estou tentando dar um jeito na bagunça. E, como é assim que eu resolvo os meus problemas, escrevendo sobre eles, hoje o texto é para o cara que eu amo tanto, mas tanto, mas tanto, que nunca transaria com ele. Meu ex melhor amigo.

A gente viveu uma época estranha onde era possível sonhar e realizar. Onde ter mérito tinha mais a ver com suas capacidades e dedicação. Algo meio utópico e antigo, fora de moda, onde as pessoas pensavam que podiam criar a própria realidade e criavam. Uma época que hoje, eu paro e penso, se por um acaso eu não sonhei e imaginei tudo. Ele tinha a cabeça leve e aberta de quem alcança os céus e escreve sonhos e que acredita piamente que tudo pode se tornar realidade, uma mistura de tarantino e woody allen, com a cabeça no chão e o coração nas nuvens.

Ele saiu da minha vida em um momento difícil, daquelas fases que você perde tudo de uma vez tipo o Governo Temmer. E eu me afastei de tudo pra não ter que explicar para as pessoas que não se importam o porquê de a gente não se importar mais também.  Eu não queria admitir, verbalizar, racionalizar que eu perdi a minha ponte quando eu te perdi. Você era a ponte que, sem saber, me ligava a todo esse universo delicado e confuso que era a minha cabeça. Você era o solo firme onde eu podia pisar, chorar, correr, voltar. Hoje eu queria te contar um segredo, algo que nunca contei pra ninguém, nem pra outra eu que mora em um conjugado aqui dentro de mim. Esse texto é pra te dizer o que eu nunca tive coragem, nem nunca terei. Dizer o que precisava ser dito pra conseguir continuar: Eu te amo. Te amo de um jeito meio estranho, como nunca amei um homem antes, daqueles amores que a gente não leva pra cama, sabe? A gente leva pro coração.

Talvez eu ame aquele que eu conheci lá atrás e que fez da minha vida um lugar incrível de se morar. E esse nem seja mais você, mas sei lá, aqui dentro bate aquela dúvida sabe? Talvez lá no fundo dessa dureza e do o asno de viver nesse mundo meio bosta ainda esteja, adormecido e sonhando, o cara incrível que eu conheci.

Eu te amo de um jeito bobo, ingênuo, meio 5ª série. Amo mesmo estando longe, perto ou em outro plano. Amo a sua genialidade, a sua perseverança, a sua forma criativa de olhar pra tudo e fazer piada ruim. Amo a forma como você satiriza tudo e tira todo o peso, todo o erro e todo o nada. Amo o quanto você é talentoso, esperançoso e idealista, mesmo querendo mostrar pra todo mundo que você é durão. Amo a sua vontade de viver, de construir, de consertar o que quebrou. A sua forma de lutar por um espaço seu, pelo que você acredita custe o que custar, doa a quem doer, pague o preço que for.

Eu amo de verdade tudo isso porque foi assim que começou a nossa amizade, eu enxergando em você tudo aquilo que havia dentro de mim. Eu amo em você a parte sua que parece comigo, e principalmente a parte sua que me fez descobrir em mim coisas incríveis. Eu te amo da forma mais pura e bela que podemos amar um amigo, mas não te quero volta, pois foi decisão sua partir.

Sou grata por todos os momentos que vivemos, por tudo que descobri em mim e no mundo por causa de você. Sou grata por ter feito parte do momento mais importante da sua história, o momento das suas descobertas sobre si, da sua luta pela vida. Sou grata por ter conhecido parte de você que talvez poucos saibam. Sou grata por ter você ainda andando por aí, correndo, lutando, realizando e tocando o coração de outras pessoas como tocou o meu.

Um dia, quem sabe, Deus sabe, não sei, a gente se encontre novamente, mais amadurecidos, mais decididos e eu possa te contar tudo que aconteceu depois que você foi embora e a cortina se fechou, quem sabe possa saber que você leu esse texto meio piegas e depre, que diz muito sem falar nada, que no fundo, lá no fundo de todas essas palavras perdidas, o quanto eu senti a sua falta.

Dizem que amizade é o amor que nunca morre e cá estou eu, ressuscitada e intacta. Eu sei que vai dar tudo certo pra você, mas mesmo que dê tudo errado e o dia nasça mais escuro eu vou estar aqui se você quiser voltar.


Se cuida tá?




sexta-feira, 25 de maio de 2018

Sobre a menina que voltou a ver estrelas

maio 25, 2018



Ela deve ter a mão macia e morna de quem trabalha duro lavando céus e esfregando sonhos, pendurando-os pra secar nos fios dos postes. Ele pensa o que escreve enquanto escreve. Ele escreve o que ele pensa enquanto pensa. São tantas “Alanis, Amarantes, Lennons, Zeppelins”, dizendo o que ele deve ou não fazer. Agora Caetano vem “O que nós faremos agora? E agora? E agora? E agora?...”.E eu me pergunto é o que o agora fará com nós. Quando é que você vai sair do meu porta-retratos e vir pro meu porta-jóias? Porque cheiro é uma coisa pra se sentir de perto. Cheiro de longe sempre corre o risco de ser confundido com uma impressão. E de impressão, já me basta essa que eu tenho de que gosto de ti.

Acabo de chegar em casa e ver tudo diferente. Ainda estou fechando os olhos e tentando dimensionar sua imagem no espaço escuro que encontro. Ainda estou com esse riso bobo na cara, matando a saudade de ter quinze anos e uma vida linda pela frente. Pode ser mesmo que isso passe, pode ser que amanhã eu acorde e você tenha ido embora. Ainda assim, ainda que amanhã chegue para estragar tudo, poder chegar em casa e ver tudo diferente já são milhões de quilômetros rodados. Zilhões.

Você não sabe, nem sonha, mas você acaba de zerar minha vida. Minha vida era acordar todos os dias e sentir aquele gosto de merda na boca. Minha vida era vestir a armadura e relembrar com dor pela milésima vez todos os últimos podres de todas as pessoas podres que passaram ultimamente pela minha vida. Você acaba de zerar tudo. Com o seu medo de beijo na orelha e com o seu jeito de se desculpar por falar demais e trocar nomes, você acaba de me salvar.

Esse texto é pra te falar uma coisa boba. É pra te pedir que não tenha medo de mim. Sabe esses textos que eu publico aqui, falando putaria? Sabe esses textos falando que eu sei disso e sei daquilo? Eu não sei de nada. Eu só queria ser salva das pedras, eu só queria aprender a pegar carona nas ondas. Eu só queria que isso que eu to sentindo agora durasse mais de uma semana. Eu só queria poder chegar em casa e ver tudo diferente. Ver tudo bonito. Ver tudo como de fato é. E você salvou minha vida. O mundo está lindo. Não tenha medo de mim.

Não tenha medo desse texto. Não tenha medo da quantidade absurda de carinho que eu quero te fazer. E de eu ser assim e falar tudo na lata. E de eu não fazer charme quando simplesmente não tem como fazer. E de eu te beijar como se a gente tivesse acabado de descobrir o beijo. E de eu ir dormir com dor na alma o final de semana inteiro por não saber o quanto posso te tocar. Não tenha medo de eu ser assim tão agora. E desse meu agora ser do tamanho do mundo. Não tenha medo. Eu sou só uma menina boba com medo da vida. Mas hoje eu não tenho medo de nada, eu apenas fecho os olhos e lembro de você me, fazendo piada ruim as duas da manhã, me lendo no escuro mesmo com dor de cabeça.

Eu posso sentir isso de novo. Que bom. Achei que eu ia ser esperta pra sempre, mas para a minha grande alegria estou me sentindo uma idiota. Sabe o que eu fiz hoje? As pazes com o Bob Marley, com o Bob Dylan e até com o ovomaltine do Bob´s. As pazes com os casais que se balançam abraçados enquanto não esperam nada, as pazes com as pessoas que não sabem ver o que eu vejo. E eu só vejo você me ensinando sobre estrelas (cadentes ou não). Eu só vejo você enchendo minha vida de estrelas. Se você puder, não tenha medo. Eu sou só uma menina que voltou a ver estrelas. E que repete, sem medo e sem fim, a palavra estrela no mesmo parágrafo. Estrela, estrela, estrela. Zilhões de vezes estrela.


segunda-feira, 21 de maio de 2018

RENASCENDO AMOR PRÓPRIO

maio 21, 2018



Há anos atrás me apaixonei por você. E como era bom apaixonar-se por você. A explosão, o tesão, a dedicação e o alívio. Dormir 8 horas por dia, comer sem peso na consciência. Malhar sem preguiça. Sorrir para a vida. Trabalhar sem angustia. Pagar contas sem reclamar e ser feliz sorrindo para o caixa leso do banco que demora a verificar um código de barras e passar troco. Como era bom! 

Fazer amor adentrando madrugadas, dormir suada em cima do seu peito. Uma rapidinha ao amanhecer, uma ducha para espairecer. Dormir agarrada ao seu pescoço. Sonhar que estava de branco na praia com um padre e um casamento. Acordar e sentir seu cheiro que era tão meu. O Cheiro de homem, inundando meu nariz, meu espaço, meu lençol, meu carro, minha vida. O cheiro que levava embora toda a sujeira dos anos antes de você, dos anos em que eu não me apaixonava e era acometida por fobias diferentes a cada semana. Uma dor na coluna pelo peso do mundo. Sentir sua existência em simbiose comigo, como era bom! 

Alguns meses atrás eu me desapaixonei de você. O seu sumiço foi uma afronta a minha vontade de te amar, um abuso as lingeries caras e os apetrechos que comprei pra te impressionar. Um vexame aos creminhos que usava depois do banho antes de dormir só pra sentir você percorrer os centímetros de mim em busca de acertar a essência. Foi uma desfeita as viagens programadas para a vilinha de pescadores da praia dos nossos sonhos. O seu silêncio foi um golpe, um corte, um acerto. Veio e levou um talho da minha barriga com um pedaço do estômago dentro pra servir de souvenir, e não foi nada bom. 

Tudo aquilo dos anos antes de você voltou. A angústia por lugares fechados, o medo da liberdade, a impotência desmedida que se apoderava de mim e provava que eu não conseguiria. Depois veio a raiva do mundo e dos homens. A vontade de estrangular o caixa leso da fila do banco com o fio de seu verificador de código de barras e fazê-lo engolir moeda por moeda de sua caixinha de troco, sem pressa. A vontade de riscar os carros de modelo idêntico ao seu e com pintura intacta, alinhados harmoniosamente em estacionamentos por aí. Furar pneus. Pichar muros com provocações: E AGORA VOCÊ ME VÊ? Assinando embaixo com um pseudônimo terrorista. Explodir latas de bombas caseiras na sua rua, em frente a sua casa. Queria explodir a mim. O desejo de vandalizar minha vida me tomou. Queria andar pelada na rua e espancar o primeiro que ousar a dar uma piadinha. O ódio do seu silêncio se tornou ódio ao mundo, a mim que enquanto mundana, enquanto existência, ainda vivia. Não, não era nada bom. 

Os meses sem você não foram bons, mas eu cresci. Aprendi a meditar, respirar e refletir. Aprendi a correr 40 minutos ao invés de estapear alguém. Aprendi a escrever e enfrentar o mundo que tanto temia e respondia com desafetos. Aprendi verdades sobre mim que apenas eu acessaria. Me prendi e aprendi comigo. Me domei, me conquistei, me formei, me trabalhei e principalmente, incondicionalmente: me amei. Me refiz. Hoje, eu sou mulher crescida. 

Algumas semanas atrás você misteriosamente reapareceu e se apaixonou por mim. E como foi bom! Os creminhos, os cheiros, as conversas, o carinho, os planos da praia e o meu riso fácil. A nossa história continuada, contada de outro ângulo. Revivida e amadurecida, tudo que eu sempre sonhei rodado ao vivo. É Fulano queria te dizer que hoje eu não te perco mais de vista pelo simples fato de eu não te perder mais, pelo simples fato de eu não te possuir. Hoje eu não me apaixono mais por você porque estou completamente, desesperadamente, intensamente e unicamente apaixonada por mim. Isso mesmo, hoje eu não me traio nem a pau!



domingo, 20 de maio de 2018

Aniversário do nosso fim.

maio 20, 2018



Fulano é pra você que ainda escrevo. Pensei em começar assim esse texto, mas após a primeira frase e o ponto final estabelecido por mim e pela gramática que, diga-se de passagem, é minha pior inimiga, percebi que eu não conseguiria continuar. A vida andou, mas esse assunto já não flui mais faz tempo. 

Você percebe que a vida andou quando seu primo sobra numa curva e cai. Quem mandou andar de moto em alta velocidade numa madrugada de chuva? Nossa família é agitada, daí me ligam às duas da manhã e só venho perceber que estou de short, blusa de alça e chinelo de dedo ao me encarar na vidraça da recepção do hospital emergencial. É sempre assim, a vida anda e a gente não nota, o tempo passa e nos assustamos ao nos depararmos com a realidade expressada pelos espelhos. 

Você enfim nota que a vida andou, quando batem na traseira do seu carro e você aceita R$ 100,00, pois está ocupada demais pra perder tempo com perícia. Você aceita que amadureceu quando vai pra cama com um homem por desejo e depois volta pra casa feliz da vida sem imaginar o nome dos filhos. O amadurecimento traz a falta de crença no amor eterno e sua vida amorosa passa a funcionar por agenciamentos semanais, os atores se tornam meros freelancers e o coração agora é seu, a gestão é de sua responsabilidade, você decide quem fica e quem vai. Percebe que é mais caro manter funcionários fiéis. 

A vida anda e você passa a encarar com naturalidade que o homem que você ama hoje, não é o mesmo que você amou há um ano e não será o mesmo que amará mês que vem. O amor de hoje pode pegar um avião e ir embora. Apenas uma mulher madura consegue voltar pra casa sem querer morrer depois de entregar o homem da sua vida daquela semana a um portão de embarque. 

Você percebe que a vida andou quando lê algum texto bem antigo e sente uma pontinha de saudade de sentir toda aquela loucura que é amar de verdade. Você enfim percebe que suas amigas estavam certas ao falarem que a “vida anda” e “tudo passa” ao encarar o calendário e notar o aniversário dos amores mortos. 

Fulano é pra você que ainda escrevo, mas a vida anda, sabe? Eu só percebi que a minha vida andou, que você passou, que o amor acabou, quando sentei aqui hoje pra escrever um texto sobre nós dois, sobre nosso aniversário e não consegui. 

Parabéns por não completarmos mais um ano, por você ter conseguido me vencer, por você ter me feito desistir. Parabéns, você ganhou, você passou, me perdeu e agora a minha vida anda (sem você).



O que tem pra hoje?

maio 20, 2018




O que tem pra hoje? Você escolhe.

Pegue o cardápio e leia atentamente.

“Sol, mar, chuva, frio, cupcake com glacê colorido, espaguete a carbonara, suco, água, nada.” É você quem escolhe. “Alto, magro, malando, charmoso, cheiroso ou gago. Advogado. Surfista." O que tem pra hoje está ao alcance de suas mãos. Difícil né, ter o poder de escolha? Está com dúvida? Olhe novamente e verá! "Barco, moto, serra, pão de queijo fresquinho, telas de pinturas a óleo, roupa nova." É isso! O que você quer? Escolha e lhe será dado. É assim a lei da vida, você seleciona o repertório e ele é tocado. Escolha certo, escolha de verdade. Do fundo do coração feche os olhos e diga: eu quero. Nada de quebra galho, contentamento, resignação. Quebre logo tudo, vire a banca e chute o balde. O que tem pra hoje? Tudo que lhe é de direito! "Amor, amizade, lealdade, risadas de doer a barriga, sundae de chocolate com calda. Almoço em família." De agora em diante o que tem pra hoje é você quem decide, porque apenas você meu amigo pode fazer acontecer. Escolha, o que vai querer? 

sábado, 19 de maio de 2018

Covarde, perdi a coragem pro amor.

maio 19, 2018



Desde a adolescência li na internet textos de mulheres empoderadas falando sobre liberdade, feminismo, amor livre e desapego. Mulheres pedindo desculpas por não conseguirem se comprometer, não conseguirem se doar o suficiente. Mulheres independentes que falavam sobre sexo casual, diziam não ao “Eu te amo” e fugiam de qualquer homem gentil demais, romântico demais, doação demais. Eu respirava fundo e pensava comigo: um dia - quando eu crescer emocionalmente - quero ser assim e acabar com essa baderna que é a minha vida amorosa. Nada de me esfolar viva por esses amores meio bostas, amores que eu invento e que no fim de tudo não passam de alucinação.

Eu sempre fui o elo fraco da relação, a louca da entrega, a que pensa no nome dos filhos, na viagem das férias, que faz mapa astral com uma semana. Eu sempre fui a garota rosada que acredita no amor da vida, que faz sexo apaixonado, esperando um pedido de casamento na praia. Não importa se o cara é DJ, Surfista ou médico, lá estava eu, depositando todas as fichas do amor da vida exclusivamente nele. No fim de tudo sempre me frustrava e sozinha, recolhia os meus pedaços.

E foi assim, sem notar, que me transformei. Aprendi a ter cautela e desacreditar de tudo, desaprendi a falar sobre sentimentos e me encolher, flutuar nas aguas rasas das relações de hoje. Dentro de mim ainda pulsavam milhares de questionamentos complexos, mas aprendi que a vida já é cruel demais pra ficar criando mais drama. Me tornei uma mulher mais sociável, alegre, disposta, atraente e é claro superficialmente madura. Não falar sobre medos, sonhos, angustias te faz uma pessoa equilibrada e bem resolvida aos olhos dos outros. Te faz se sentir confortável consigo mesma porque afinal de contas não dói mais. E quando dói a gente se tranca, chora, bebe, dorme, escreve na internet anonimamente e fica tudo certo.

Com o tempo a gente aprende que o amor da vida é uma construção social, algo que inventaram e repetiram pra você até você assimilar como verdade universal. A gente aprende que o egocentrismo faz bem e que a vida é assim mesmo, cada um no se quadrado, lutando as suas batalhas, conquistando o eu espaço. Se conforma que é ok você morar sozinha, viajar sozinha, não ter filhos e nunca casar. E os vazios a gente preenche com terapia, autoconhecimento, viagens a lugares incríveis, roupas e bolsas incríveis, maquiagem, Yoga e trabalho voluntário. Você começa a perceber que liberdade é isso, se permitir ser sozinha sem sofrer.

Quando eu já estava conformada que esse seria o resto de vida que teria pra mim, você surge pulando toda aquela parte em que a gente não se sente à vontade perto de um desconhecido, como se já me conhecesse a um tempão. E acho até que conhecia mesmo. Quando eu te olhei eu me reencontrei, vi a menina rosada que tinha ficado pra trás. Vi nos seus olhos o mundo que eu queria, o mundo que eu fingia que não me importava, o mundo que eu tinha deixado pra trás. Vi nos seus olhos a vida que eu deveria ter vivido. O amor que eu achava que tinha perdido, bem ali parado na frente de camiseta polo. Você buscava em mim aquela menina que te ajudou a descobrir um novo homem, que despertou em você a vontade de cuidar de alguém, construir uma família e ter um pouso certo pra ficar, ficando raiz. Eu não podia assumir o lugar ao seu lado porque eu já havia me perdido de mim há muito tempo. Eu procurava uma saída. Uma fuga. Um jeito de não te matar, mas também de não morrer.

Eu queria ter te encontrado em um barzinho qualquer da cidade, numa ida e vinda do banheiro, na luta por achar uma vaga pra estacionar na rua, na fila da Hortfuti do Pão de açúcar. Daí quando me perguntassem – Onde você conheceu o homem da sua vida? – Eu teria uma história bonita pra contar. Eu queria ter te conhecido há dez anos, quando eu ainda acreditava no amor, na palavra e no caráter das pessoas. Eu queria que fossemos do mesmo mundo, que vivêssemos a mesma realidade, algo que pelo menos me desse segurança de que poderia dar certo.

Enquanto você não viver isso comigo, eu não irei sair da sua mente – ele disse. Conheço mais da minha mente que você – respondi. E tudo é questão de tempo, me dá uns dias. 

Angústia...

A vontade de ficar perto e fugir ao mesmo tempo. Eu não posso ficar. Aquela menina não existe mais, não tem magia nenhuma nesse mundo. Sempre foi tudo mentirinha. Tenta entender, eu não devia ter te deixado acontecer, eu já não consigo mais ser aquela que um dia fui. Vai embora, volta pro que é teu. Mas quanto mais fuga, mais prisão. E quanto mais tentava escapar mais sentia que o meu lugar era ali. Meu lugar era ele. Mas na prática a teoria sempre some. Na prática, os homens vão embora depois que a gente se entrega, era essa a minha lição de vida, aprendida com tantas lágrimas. A sensação de impotência diante de algo tão simples me quebrou ao meio.

Por que você quer esquecer? - Ele perguntou angustiado.

Porque eu não quero me machucar.

E pra VOCÊ não se machucar, você ME machuca? 

Eu quero, mas não posso. Desejo, mas não devo. Covarde, perdi a coragem pro amor. A vida já bateu na minha cara tantas vezes sem gentileza, que eu preferi te mandar embora a viver tudo aquilo que queríamos pra gente. Quero que você seja feliz, mas não quero ver sua felicidade. Não quero constatar a sua felicidade sem mim, enquanto a minha é tão incerta. Egoísta, humana, covarde, fria. Não era o que eu queria ter me transformado, mas é exatamente assim que sou. Tenho problemas em perder, problemas em arriscar. E assim eu vou seguindo. Claro, vou encontrar outras pessoas e talvez me envolva com elas, contanto que nenhuma delas seja você, que nenhuma delas desperte em mim a fragilidade, a leveza e o amor que você despertou. Você não imagina o estrago que isso faz na vida de alguém!

Sabe, eu te amo, da forma mais pura e ingênua possível, da forma mais linda que consigo, mas não dá, vai embora. Eu não suportaria outra entrega, me despedaçar novamente, me reorganizar novamente, remontar tudo dentro de mim. Eu sei que seria a mulher da sua vida, eu sei que te faria muito feliz, mas eu também sei que amores machucam e eu não estou mais disposta a pagar o preço.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

BARULHO

fevereiro 20, 2018



O tempo passa e a gente emudece, para de sonhar, senta e obedece. A maturidade traz mordaças que nem sempre são frutos de sabedoria, às vezes, é só o medo falando mais alto mesmo. Medo de falar e magoar, falar e se equivocar, medo de falar e se expor. Quem é mais corajoso afinal, aquele que fala e expõe sua singularidade para o mundo ou aquele que cala e observa para tentar aprender algo com a experiência do outro? Silêncio e som a dicotomia discutida por séculos.

A angústia por dizer na hora certa apenas o necessário nos toma quando o peso da vida começa a arquear os ombros. O tempo passa e as pessoas esperam de você uma transformação, esperam te olhar e ver uma mulher madura, centrada, mãe. Uma mulher que saiba cozinhar, dirigir que tenha um mestrado e um emprego público ou pelo menos um emprego privado de prestígio, uma carreira em ascensão. E o peso dos títulos te afundam na grama, na areia, na lama, na cadeira do escritório ou do restaurante e sufocam as palavras. 

Se eu não fosse mãe, se eu não fosse médica, se eu não fosse advogada, se eu não fosse à filha do meu pai, se eu não fosse envergonhar meu marido. E silenciamos, às vezes por bem, às vezes por costume, porque o silêncio é agradável, ninguém quer saber de ninguém, ninguém quer ouvir. Ninguém gosta do barulho do outro, as pessoas vivem imersas no seu próprio som.

E é por isso que parei de escrever aqui, aquela prepotência juvenil que se expressa sem medo de críticas, me abandonou e eu me acovardei acomodei. Eu calei por medo de me expor. Eu via certo brilho na minha loucura, mas deixei o mundo me convencer de que sábio mesmo é aquele que cala, maduro é aquele que não se opõe, centrado é aquele que não enfrenta. Por anos eu vivi no solitário silêncio, mas o meu mundo transborda, ele não cabe apenas em mim, é da minha natureza falar, é da minha natureza escrever.

Para a tristeza dos incomodados com o meu barulho, eu sinto muito dizer, mas eu voltei.



sábado, 12 de março de 2016

Eu não valho a pena

março 12, 2016



O primeiro erro que alguém pode cometer ao se relacionar comigo é se apaixonar antes de me conhecer, depositar sentimentos e sensibilidades antes de ter certeza de que eu valho a pena. Quer um conselho? Eu não valho nenhum pouco a pena. Isso mesmo. A paixão é cega, é um pathos como diriam as ciências humanas, uma droga alucinógena fabricada a base de idealizações, esperança e amores que inventamos (quer mais letal que isso?), todos esses ingredientes usados indiscriminadamente sem as precauções cabíveis, tornam-se o primeiro passo de um fiasco desmedido. Porque quando a realidade dá as caras meu bem, ninguém é tão amor infinito quanto se espera. 

Mulher alguma dá conta de ser tão linda, culta, equilibrada e boa de cama quanto o outro pensa. Tão livre do ciúme quanto da tpm. E após alguns meses quando a realidade vem a tona ainda somos forçadas a prestar contar pelas expectativas não correspondidas que não são nossas. Todo relacionamento é um contrato simbólico e quando o pacto de intenções não é verbalizado, as pessoas sofrem pelos "não ditos" e apontam o dedo pro parceiro culpando-o pelo fiasco da relação. "Cadê a mulher perfeita, linda, paciente e carinhosa que eu conheci?". A realidade é que talvez essa mulher nunca tenha existido, a não ser na sua fértil imaginação! 

Esse texto poderia ser parte da minha auto-biografia premeditada. Coisas que podemos escrever antes que elas aconteçam, pois inevitavelmente vão acontecer. Eu nunca consegui ser tão boa companhia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão culta quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão descolada quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão assídua na academia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão dona da minha própria vida quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão bem resolvida quanto pensavam que eu fosse. 

Talvez eu passe uma imagem errada de mim. Não sou metade da cabeça pensante que pareço, não tenho metade da empolgação pra malhar que já tive, não me viro tão bem sozinha quanto digo que me viro, não gosto tanto assim da minha própria companhia quanto eu digo por aí. Sou chata mesmo e tem hora que nem eu me agüento. Sou extremamente simples, caseira e cheia de manias estranhas (como ouvir Sandy e dançar no meio da rua). Faço coisas “de homem” como trocar chuveiro, pintar a parede e consertar descarga em pleno feriado. 

Já se apaixonaram por mim diversas vezes e, ainda assim, continuo solteira. Cada vez mais, quero que não se apaixonem por mim, afinal não vou ser metade da fantasia de alguém. Nem tento. Já vou dizendo logo quem sou, pois meu negócio é a realidade. Não tenho mais idade pra namoros adolescentes ou pra me interessar por viver uma ilusão. Todos que se apaixonaram por mim me fizeram sofrer no final. Queriam que eu fosse alguém que eu não sou pra eu corresponder a uma expectativa que não fui eu que criei. 

Eu não pareço, nem de longe, a garota da camiseta molhada da revista. Eu não tenho vocação (nem ausência de vergonha na casa o suficiente) pra andar de shortinho enfiado. Nunca vou colocar silicone e meus peitos vão continuar do jeito que eu gosto que eles sejam. Nunca vou achar normal traição e meu conceito de traição inclui trocar telefone (ou outro meio de contato) com uma mulher na balada. Nunca vou deixar solto quem eu amo. Minhas verdades mudam com o tempo, meus valores não. O que alguém acha de mim não vai determinar quem eu sou. Mesmo assim, não vou discordar quando alguém achar que eu não valho a pena. Eu valho. Eu valho a pena se tentarem me amar ao invés de se apaixonarem por mim.

terça-feira, 8 de março de 2016

Me perguntaram por que eu parei de escrever

março 08, 2016




Me perguntam por que parei de escrever, pra ser sincera, nem eu mesma sei. Talvez eu saiba o espírito que me tomou e fez produzir os textos que conhecem, mas quando ele vai embora, não me deixa carta de despedida. Eu apenas amanheço sem o decodificador de sentimentos e um embrulho no estômago, a má digestão do sentir tomando conta de minha existência. Não existe sal de frutas pra sentimentos não ressignificados, não existe pílula que desfaça nós na alma, então eu travo.

Não sou intelectual ou linguista. Não escrevo pra produzir arte ou literatura, acredito que boa parte da minha disposição em expor minhas letrinhas é fruto de um espírito juvenil que exala prepotência sem intencionalidade, a qual acha de tudo sabe, que de tudo já viveu. Sou bipolar assumida, daquelas que sente tudo e não entende muito, escrever é minha forma de exorcizar meus demônios, dar lógica, propor o sentido. É minha forma de me conhecer. Por isso escrevo, é através da linguagem que organizo minha existência.

Desde o início da vida, pensei o amor como um encontro entre dois seres que estão de peito aberto e alma limpa prontos a se conectar. Tratava-o com tanta simplicidade e propriedade, com tanta leveza. O amor pra mim deveria ser leve, limpo, fácil e colorido como bolhas de sabão sopradas ao ar por uma criança inocente. Um dia meu peito se abriu e eu encontrei o amor. Com simplicidade brinquei, sonhei, me entreguei e senti. Sofri. Calei. Morri. Parei de escrever.

Até que eu decidi voltar pra contar o que acontece depois. Depois que o amor morre e renasce. Pra contar sobre o Amortecimento em mim.




domingo, 6 de março de 2016

Sentimentos Voláteis

março 06, 2016



Então eu parei e quis dizer uma coisa bonita na frente do espelho, na frente de mim mesma e daquela pessoa de cabelo comprido que eu não conhecia, que eu olhava fixo dentro dos olhos e tinha certeza absoluta que não fazia idéia de quem era. Eu quis dizer uma coisa bonita pra que todas as coisas ruins que estavam acontecendo comigo - e com ela - naquela hora, fossem embora junto com as lágrimas de raiva e frustração que eu e ela derramávamos na frente do meu espelho enfeitado.

Eu já não era eu mesma e as horas iam passando depressa enquanto o tempo perdido se acumulava dentro de mim sem volta. Mas, aos poucos, fui percebendo que não adianta acumular a dor, não adianta pôr a cabeça pra fora na chuva e, ao invés de lavar a alma, pegar um resfriado e ficar a semana toda de cama. A minha cabeça repetitiva até quis sofrer mais um pouquinho as mudanças, pra ser poética, mas eu decidi que, dessa vez, eu seria sucinta porque, dessa vez, era pra mim, só pra mim, sem segundas e terceiras pessoas espalhadas pelos cômodos da minha vida.

Tinha que ser bonita porque todas as coisas ao meu redor andavam feias demais para me servirem de consolo; eu nunca gostei de imaginar que pra um fracasso meu, haveria de ter um consolo. Mas havia, porque sempre há alguma coisa que se salva quando o mundo resolve ser caos e você não quer bagunça naquela noite. Analisar a vida e os problemas que vêm com ela poderia até ser uma tortura chinesa que eu vivia dizendo não querer me submeter. Mas a verdade é que quem fala muito sobre uma coisa, ainda mais a quatro ventos, não pode estar fazendo outra coisa se não analisar.

Exibicionismo nenhum do mundo, mostra feridas que vão despertar tantos outros sentimentos que não inveja. 

A vida bateu na minha cara, muitos dias seguidos, sem poesia nenhuma que era pra me deixar sem vontade alguma de abrir os olhos. Só que os olhos são meus e cabe a mim saber até onde é bom enxergar, mesmo que sejam só coisas ruins que não vão me dar o sorrisinho fake que eu tenho que carregar todas as manhãs, no meio dos idiotas engomados que habitam este planeta. A verdade da história é que, por mais dura que as coisas pareçam ser, sempre vai haver alguma maciez nos subtítulos da vida de alguém que intitula todas as coisas pra não se sentir sozinha quando todos os acompanhantes vão embora para ter uma vida mais cheia de graça além da nossa.

E a solidão tem sim, embutida nela, as coisas ruins que tanto se comenta e não existe como não participar do consenso. Mas esquecem de contar que todos os questionamentos que vêm junto, quebram a idéia de felicidade utópica que, não, não existe e, por isso, machuca muito querer tanto. Não eram as segundas feiras de manhã, as sextas à noite e, tampouco, os domingo à tarde que fariam de mim uma mulher extravasada de ódio e nem menos capaz de amor. 

Assim como tudo na vida, amores e amigos vêm e vão e, fico aqui perguntando baixinho, quem sou eu então pra decidir que os meus não deveriam mudar? 

Um dia, em algum dos passados que já foram contados aqui, ali e acolá, ela resolveu que seria uma mulher descritiva. Contou cada peculiaridade das coisas estranhas que sentia, que fazia sentir. Ela chorou as mágoas em público e abriu caminho para muitas outras delas entrarem, numa metástase confusa de quem sofre por opção de não ter a opção de ver o espetáculo parar.

Alguns se vão por vontade própria. Outros, são convidados a se retirar. E ela passa a vida descrevendo as coisas que tantos sentem através dela, se tornando ela mesma, a mais frígida das mulheres perante seus próprios sentimentos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Eu sou do bem

fevereiro 01, 2016




Em um mundo de agonias eu sempre fui o resgate, com a carta certa escondida na manga para os mais diversos desalentos, desde crises financeiras a transtornos no casamento, eu sempre fui o afago maternal que se busca após a queda. Eu fui e sou o chão seguro de muitos, a mão amável que levanta, sou o ombro chorado e lamentado, o lenço usado e jogado fora após o amasso de fúria, o ouvido entupido com desenganos. Sou o que fica depois que a dor do outro passa. Eu sou uma espécie de consciência que traz a paz e a felicidade de volta, estampando sorrisos no alvorecer de almas que se enegreceram. Eu sou do bem!

Empréstimo de roupa para encontros e textos para cartas de amor, são minha especialidade. Sou aquela que vai ao mesmo restaurante, senta-se a mesa do lado para enviar energias positivas e vibrar escondido com o toque na mão tão esperado da noite. Eu sou única que acredita na viabilidade das maiores loucuras ao se tratar de sonhos de amigos. Visto a camisa, pago mico, danço Gangnam Style e rebolo se for preciso. Vendo chocolates na praia, construo e reboco paredes, faço dieta junto pra incentivar e corro no calçadão em companhia. Eu sou aquela pessoa que atende telefonemas à noite pra ouvir e fazer rir. Sou aquela que sai de casa e enfrenta o trânsito apenas para tornar o dia de alguém mais rosinha. Eu sou amiga, isso mesmo, daquelas de verdade sabe? Daquelas que dizem por aí que não existem mais, pois é!

Dou a cara a tapa, a outra face também. Cedo meu espaço sem peso na consciência ou dor de cotovelo. Não sinto inveja ou despeita de ex. Não roubo namorado. Não me aproximo de pessoas pelo status ou o modelo do carro. Desisto de algo quando sinto que vou magoar. Apesar de não parecer para muitos eu tenho coração mole e sensibilidade mil, na realidade, de cabeça fria sou incapaz de fazer o mal a alguém. Tudo que faço é de coração aberto e alma limpa. Receber em troca só se for gratidão e respeito, pois gentileza gera paz de espírito e eu respiro em alívio todas as noites com a cabeça leve no travesseiro.

Converso e danço com passarinhos de estimação. Digo que não perdoo, mas ligo no dia seguinte para saber como anda a vida. Ligo no aniversário, Natal, Reveillon ainda que tenha prometido nunca mais ligar. Sabe o porquê? Porque isso é meu, sou assim, ninguém muda. Eu sou sim daquelas meninas bobas que dizem por aí que não existem mais. Não carrego mágoas, por pura incapacidade. Carrego comigo apenas o que foi bom e recapitulo quando o coração aperta e ameaça lágrimas. Eu sou toda amor. Se o cara não merece aí já não é mais comigo. Ele que aproveite a boca boa que a vida ofereceu, pois é de mim apenas ser amor e amar, não há mais como mudar.

Não é que eu escreva sobre melancolias, deixe-me explicar. Eu escrevo na realidade sobre o fim do amor. Por quê? Eu apanhei muito pra aprender a amar de verdade. Apenas com o passar dos anos é que fui tomando nota e dando conta de algumas lições. Eu amava com intensidade: mãe, vó, cachorro, menino da séria acima da minha, depois os professores, a melhor amiga e por últimos alguns cafajestes. Desenfreada seguia doando o melhor de mim e anotando nomes que me deviam afetos.

Eu amei muito muita gente e apanhei, da vida e de pessoas, com força, sem piedade. Tive o coração espedaçado um milhão de vezes em pedacinhos incontáveis e demorei a remonta-lo. Mas eu consegui! Por isso escrevo. Pra dizer que eu entendo e sei como é. Pra dizer ainda que vai passar e está perto. Pra afirmar que o amor vale muito a pena ainda que doa. Que o amor verdadeiro tem de ser amado apenas e só. As recompensas, a reciprocidade, o respeito aparecem sim, mas em uma embalagem colorida com fita de cor e laço bem feito deixando você com olhos arregalados de surpresa! Pode vir um remetente anônimo ou quem sabe do remetente esperado, mas não recuse se vier de um outro endereço desconhecido, o importante é que venha e traga paz.

Ser amiga, filha, mãe, mulher, namorada, esposa, ser gente de verdade dá trabalho, eu sei, mas amar é fácil. Não permita que ninguém te convença do contrário. Não desista de amar nunca. Não deixe ninguém sabotar o seu amor, pois o amor é a força do bem que nos constitui, que nos movimenta. Deixar de amar é perder a si. E ninguém, em hipótese alguma, vale mais a pena que você.

Eu digo pra vida:

– Eu sou do bem e o amor existe. Ele vem me visitar todos os dias quando acordo, dizendo “Hoje eni, vai ser demais!”.