terça-feira, 29 de maio de 2018

Carta ao meu ex melhor amigo






O que dói mais, perder um grande amigo ou um grande amor? Amor é aquela tempestade tropical que te fez zerar o estoque de batata springs e nutela do supermercado pra ficar trancada em casa esperando tudo acabar. Mas vamos combinar que amizade tem também um pouco de amor no contexto. Se tornar amigo de alguém também tem algo a ver com paixão, lealdade e companheirismo. A gente busca alguém que estará do nosso lado quando o amor da nossa vida for embora, quando você estiver sem rumo, sem saber que caminho seguir. Mas a gente também aprende a duras penas que amigos vem e vão, muito embora alguns fiquem presos naquela parcela de passado que nosso cérebro é incapaz de esquecer.

E foi assim que eu parei de escrever. Foi depois de perder o meu melhor amigo que tudo travou aqui dentro, fiquei em um looping atemporal onde ele estava presente em tudo, mesmo tendo ido embora há tempos.

O meu processo de criação é mais ou menos isso, eu acordo de madrugada e minha cabeça fala comigo. Conta uma história sem meio, sem fim é um pouco sem nexo. Sento no computador e horas após isso, lá está ele. Um novo texto, profundo, sofrido ou escrachando essa pouca vergonha que a gente chama de vida. Depois que ele se foi houve um blackout dentro de mim, sempre que eu sentava aqui pra escrever um texto, era nele em quem eu pensava o tempo todo.

Hoje eu vou escrever um texto sobre amor, daqueles bem sofridos. Hoje eu vou escrever umas sacadinhas escrotas sobre homem babaca e seus papos batidos. Hoje vou escrever sobre como panetone trufado pode mudar sua vida, e nada, nada acontecia. Então hoje, eu decidi escrever sobre ele, o meu paradoxo de descontinuidade. Aquele que não é mais, sempre sendo, mais um cara que eu amei e foi embora. Mais um cara que desconsertou tudo dentro de mim e que até hoje eu estou tentando dar um jeito na bagunça. E, como é assim que eu resolvo os meus problemas, escrevendo sobre eles, hoje o texto é para o cara que eu amo tanto, mas tanto, mas tanto, que nunca transaria com ele. Meu ex melhor amigo.

A gente viveu uma época estranha onde era possível sonhar e realizar. Onde ter mérito tinha mais a ver com suas capacidades e dedicação. Algo meio utópico e antigo, fora de moda, onde as pessoas pensavam que podiam criar a própria realidade e criavam. Uma época que hoje, eu paro e penso, se por um acaso eu não sonhei e imaginei tudo. Ele tinha a cabeça leve e aberta de quem alcança os céus e escreve sonhos e que acredita piamente que tudo pode se tornar realidade, uma mistura de tarantino e woody allen, com a cabeça no chão e o coração nas nuvens.

Ele saiu da minha vida em um momento difícil, daquelas fases que você perde tudo de uma vez tipo o Governo Temmer. E eu me afastei de tudo pra não ter que explicar para as pessoas que não se importam o porquê de a gente não se importar mais também.  Eu não queria admitir, verbalizar, racionalizar que eu perdi a minha ponte quando eu te perdi. Você era a ponte que, sem saber, me ligava a todo esse universo delicado e confuso que era a minha cabeça. Você era o solo firme onde eu podia pisar, chorar, correr, voltar. Hoje eu queria te contar um segredo, algo que nunca contei pra ninguém, nem pra outra eu que mora em um conjugado aqui dentro de mim. Esse texto é pra te dizer o que eu nunca tive coragem, nem nunca terei. Dizer o que precisava ser dito pra conseguir continuar: Eu te amo. Te amo de um jeito meio estranho, como nunca amei um homem antes, daqueles amores que a gente não leva pra cama, sabe? A gente leva pro coração.

Talvez eu ame aquele que eu conheci lá atrás e que fez da minha vida um lugar incrível de se morar. E esse nem seja mais você, mas sei lá, aqui dentro bate aquela dúvida sabe? Talvez lá no fundo dessa dureza e do o asno de viver nesse mundo meio bosta ainda esteja, adormecido e sonhando, o cara incrível que eu conheci.

Eu te amo de um jeito bobo, ingênuo, meio 5ª série. Amo mesmo estando longe, perto ou em outro plano. Amo a sua genialidade, a sua perseverança, a sua forma criativa de olhar pra tudo e fazer piada ruim. Amo a forma como você satiriza tudo e tira todo o peso, todo o erro e todo o nada. Amo o quanto você é talentoso, esperançoso e idealista, mesmo querendo mostrar pra todo mundo que você é durão. Amo a sua vontade de viver, de construir, de consertar o que quebrou. A sua forma de lutar por um espaço seu, pelo que você acredita custe o que custar, doa a quem doer, pague o preço que for.

Eu amo de verdade tudo isso porque foi assim que começou a nossa amizade, eu enxergando em você tudo aquilo que havia dentro de mim. Eu amo em você a parte sua que parece comigo, e principalmente a parte sua que me fez descobrir em mim coisas incríveis. Eu te amo da forma mais pura e bela que podemos amar um amigo, mas não te quero volta, pois foi decisão sua partir.

Sou grata por todos os momentos que vivemos, por tudo que descobri em mim e no mundo por causa de você. Sou grata por ter feito parte do momento mais importante da sua história, o momento das suas descobertas sobre si, da sua luta pela vida. Sou grata por ter conhecido parte de você que talvez poucos saibam. Sou grata por ter você ainda andando por aí, correndo, lutando, realizando e tocando o coração de outras pessoas como tocou o meu.

Um dia, quem sabe, Deus sabe, não sei, a gente se encontre novamente, mais amadurecidos, mais decididos e eu possa te contar tudo que aconteceu depois que você foi embora e a cortina se fechou, quem sabe possa saber que você leu esse texto meio piegas e depre, que diz muito sem falar nada, que no fundo, lá no fundo de todas essas palavras perdidas, o quanto eu senti a sua falta.

Dizem que amizade é o amor que nunca morre e cá estou eu, ressuscitada e intacta. Eu sei que vai dar tudo certo pra você, mas mesmo que dê tudo errado e o dia nasça mais escuro eu vou estar aqui se você quiser voltar.


Se cuida tá?