sábado, 19 de maio de 2018

Covarde, perdi a coragem pro amor.




Desde a adolescência li na internet textos de mulheres empoderadas falando sobre liberdade, feminismo, amor livre e desapego. Mulheres pedindo desculpas por não conseguirem se comprometer, não conseguirem se doar o suficiente. Mulheres independentes que falavam sobre sexo casual, diziam não ao “Eu te amo” e fugiam de qualquer homem gentil demais, romântico demais, doação demais. Eu respirava fundo e pensava comigo: um dia - quando eu crescer emocionalmente - quero ser assim e acabar com essa baderna que é a minha vida amorosa. Nada de me esfolar viva por esses amores meio bostas, amores que eu invento e que no fim de tudo não passam de alucinação.

Eu sempre fui o elo fraco da relação, a louca da entrega, a que pensa no nome dos filhos, na viagem das férias, que faz mapa astral com uma semana. Eu sempre fui a garota rosada que acredita no amor da vida, que faz sexo apaixonado, esperando um pedido de casamento na praia. Não importa se o cara é DJ, Surfista ou médico, lá estava eu, depositando todas as fichas do amor da vida exclusivamente nele. No fim de tudo sempre me frustrava e sozinha, recolhia os meus pedaços.

E foi assim, sem notar, que me transformei. Aprendi a ter cautela e desacreditar de tudo, desaprendi a falar sobre sentimentos e me encolher, flutuar nas aguas rasas das relações de hoje. Dentro de mim ainda pulsavam milhares de questionamentos complexos, mas aprendi que a vida já é cruel demais pra ficar criando mais drama. Me tornei uma mulher mais sociável, alegre, disposta, atraente e é claro superficialmente madura. Não falar sobre medos, sonhos, angustias te faz uma pessoa equilibrada e bem resolvida aos olhos dos outros. Te faz se sentir confortável consigo mesma porque afinal de contas não dói mais. E quando dói a gente se tranca, chora, bebe, dorme, escreve na internet anonimamente e fica tudo certo.

Com o tempo a gente aprende que o amor da vida é uma construção social, algo que inventaram e repetiram pra você até você assimilar como verdade universal. A gente aprende que o egocentrismo faz bem e que a vida é assim mesmo, cada um no se quadrado, lutando as suas batalhas, conquistando o eu espaço. Se conforma que é ok você morar sozinha, viajar sozinha, não ter filhos e nunca casar. E os vazios a gente preenche com terapia, autoconhecimento, viagens a lugares incríveis, roupas e bolsas incríveis, maquiagem, Yoga e trabalho voluntário. Você começa a perceber que liberdade é isso, se permitir ser sozinha sem sofrer.

Quando eu já estava conformada que esse seria o resto de vida que teria pra mim, você surge pulando toda aquela parte em que a gente não se sente à vontade perto de um desconhecido, como se já me conhecesse a um tempão. E acho até que conhecia mesmo. Quando eu te olhei eu me reencontrei, vi a menina rosada que tinha ficado pra trás. Vi nos seus olhos o mundo que eu queria, o mundo que eu fingia que não me importava, o mundo que eu tinha deixado pra trás. Vi nos seus olhos a vida que eu deveria ter vivido. O amor que eu achava que tinha perdido, bem ali parado na frente de camiseta polo. Você buscava em mim aquela menina que te ajudou a descobrir um novo homem, que despertou em você a vontade de cuidar de alguém, construir uma família e ter um pouso certo pra ficar, ficando raiz. Eu não podia assumir o lugar ao seu lado porque eu já havia me perdido de mim há muito tempo. Eu procurava uma saída. Uma fuga. Um jeito de não te matar, mas também de não morrer.

Eu queria ter te encontrado em um barzinho qualquer da cidade, numa ida e vinda do banheiro, na luta por achar uma vaga pra estacionar na rua, na fila da Hortfuti do Pão de açúcar. Daí quando me perguntassem – Onde você conheceu o homem da sua vida? – Eu teria uma história bonita pra contar. Eu queria ter te conhecido há dez anos, quando eu ainda acreditava no amor, na palavra e no caráter das pessoas. Eu queria que fossemos do mesmo mundo, que vivêssemos a mesma realidade, algo que pelo menos me desse segurança de que poderia dar certo.

Enquanto você não viver isso comigo, eu não irei sair da sua mente – ele disse. Conheço mais da minha mente que você – respondi. E tudo é questão de tempo, me dá uns dias. 

Angústia...

A vontade de ficar perto e fugir ao mesmo tempo. Eu não posso ficar. Aquela menina não existe mais, não tem magia nenhuma nesse mundo. Sempre foi tudo mentirinha. Tenta entender, eu não devia ter te deixado acontecer, eu já não consigo mais ser aquela que um dia fui. Vai embora, volta pro que é teu. Mas quanto mais fuga, mais prisão. E quanto mais tentava escapar mais sentia que o meu lugar era ali. Meu lugar era ele. Mas na prática a teoria sempre some. Na prática, os homens vão embora depois que a gente se entrega, era essa a minha lição de vida, aprendida com tantas lágrimas. A sensação de impotência diante de algo tão simples me quebrou ao meio.

Por que você quer esquecer? - Ele perguntou angustiado.

Porque eu não quero me machucar.

E pra VOCÊ não se machucar, você ME machuca? 

Eu quero, mas não posso. Desejo, mas não devo. Covarde, perdi a coragem pro amor. A vida já bateu na minha cara tantas vezes sem gentileza, que eu preferi te mandar embora a viver tudo aquilo que queríamos pra gente. Quero que você seja feliz, mas não quero ver sua felicidade. Não quero constatar a sua felicidade sem mim, enquanto a minha é tão incerta. Egoísta, humana, covarde, fria. Não era o que eu queria ter me transformado, mas é exatamente assim que sou. Tenho problemas em perder, problemas em arriscar. E assim eu vou seguindo. Claro, vou encontrar outras pessoas e talvez me envolva com elas, contanto que nenhuma delas seja você, que nenhuma delas desperte em mim a fragilidade, a leveza e o amor que você despertou. Você não imagina o estrago que isso faz na vida de alguém!

Sabe, eu te amo, da forma mais pura e ingênua possível, da forma mais linda que consigo, mas não dá, vai embora. Eu não suportaria outra entrega, me despedaçar novamente, me reorganizar novamente, remontar tudo dentro de mim. Eu sei que seria a mulher da sua vida, eu sei que te faria muito feliz, mas eu também sei que amores machucam e eu não estou mais disposta a pagar o preço.