segunda-feira, 21 de maio de 2018

RENASCENDO AMOR PRÓPRIO




Há anos atrás me apaixonei por você. E como era bom apaixonar-se por você. A explosão, o tesão, a dedicação e o alívio. Dormir 8 horas por dia, comer sem peso na consciência. Malhar sem preguiça. Sorrir para a vida. Trabalhar sem angustia. Pagar contas sem reclamar e ser feliz sorrindo para o caixa leso do banco que demora a verificar um código de barras e passar troco. Como era bom! 

Fazer amor adentrando madrugadas, dormir suada em cima do seu peito. Uma rapidinha ao amanhecer, uma ducha para espairecer. Dormir agarrada ao seu pescoço. Sonhar que estava de branco na praia com um padre e um casamento. Acordar e sentir seu cheiro que era tão meu. O Cheiro de homem, inundando meu nariz, meu espaço, meu lençol, meu carro, minha vida. O cheiro que levava embora toda a sujeira dos anos antes de você, dos anos em que eu não me apaixonava e era acometida por fobias diferentes a cada semana. Uma dor na coluna pelo peso do mundo. Sentir sua existência em simbiose comigo, como era bom! 

Alguns meses atrás eu me desapaixonei de você. O seu sumiço foi uma afronta a minha vontade de te amar, um abuso as lingeries caras e os apetrechos que comprei pra te impressionar. Um vexame aos creminhos que usava depois do banho antes de dormir só pra sentir você percorrer os centímetros de mim em busca de acertar a essência. Foi uma desfeita as viagens programadas para a vilinha de pescadores da praia dos nossos sonhos. O seu silêncio foi um golpe, um corte, um acerto. Veio e levou um talho da minha barriga com um pedaço do estômago dentro pra servir de souvenir, e não foi nada bom. 

Tudo aquilo dos anos antes de você voltou. A angústia por lugares fechados, o medo da liberdade, a impotência desmedida que se apoderava de mim e provava que eu não conseguiria. Depois veio a raiva do mundo e dos homens. A vontade de estrangular o caixa leso da fila do banco com o fio de seu verificador de código de barras e fazê-lo engolir moeda por moeda de sua caixinha de troco, sem pressa. A vontade de riscar os carros de modelo idêntico ao seu e com pintura intacta, alinhados harmoniosamente em estacionamentos por aí. Furar pneus. Pichar muros com provocações: E AGORA VOCÊ ME VÊ? Assinando embaixo com um pseudônimo terrorista. Explodir latas de bombas caseiras na sua rua, em frente a sua casa. Queria explodir a mim. O desejo de vandalizar minha vida me tomou. Queria andar pelada na rua e espancar o primeiro que ousar a dar uma piadinha. O ódio do seu silêncio se tornou ódio ao mundo, a mim que enquanto mundana, enquanto existência, ainda vivia. Não, não era nada bom. 

Os meses sem você não foram bons, mas eu cresci. Aprendi a meditar, respirar e refletir. Aprendi a correr 40 minutos ao invés de estapear alguém. Aprendi a escrever e enfrentar o mundo que tanto temia e respondia com desafetos. Aprendi verdades sobre mim que apenas eu acessaria. Me prendi e aprendi comigo. Me domei, me conquistei, me formei, me trabalhei e principalmente, incondicionalmente: me amei. Me refiz. Hoje, eu sou mulher crescida. 

Algumas semanas atrás você misteriosamente reapareceu e se apaixonou por mim. E como foi bom! Os creminhos, os cheiros, as conversas, o carinho, os planos da praia e o meu riso fácil. A nossa história continuada, contada de outro ângulo. Revivida e amadurecida, tudo que eu sempre sonhei rodado ao vivo. É Fulano queria te dizer que hoje eu não te perco mais de vista pelo simples fato de eu não te perder mais, pelo simples fato de eu não te possuir. Hoje eu não me apaixono mais por você porque estou completamente, desesperadamente, intensamente e unicamente apaixonada por mim. Isso mesmo, hoje eu não me traio nem a pau!