sexta-feira, 25 de maio de 2018

Sobre a menina que voltou a ver estrelas




Ela deve ter a mão macia e morna de quem trabalha duro lavando céus e esfregando sonhos, pendurando-os pra secar nos fios dos postes. Ele pensa o que escreve enquanto escreve. Ele escreve o que ele pensa enquanto pensa. São tantas “Alanis, Amarantes, Lennons, Zeppelins”, dizendo o que ele deve ou não fazer. Agora Caetano vem “O que nós faremos agora? E agora? E agora? E agora?...”.E eu me pergunto é o que o agora fará com nós. Quando é que você vai sair do meu porta-retratos e vir pro meu porta-jóias? Porque cheiro é uma coisa pra se sentir de perto. Cheiro de longe sempre corre o risco de ser confundido com uma impressão. E de impressão, já me basta essa que eu tenho de que gosto de ti.

Acabo de chegar em casa e ver tudo diferente. Ainda estou fechando os olhos e tentando dimensionar sua imagem no espaço escuro que encontro. Ainda estou com esse riso bobo na cara, matando a saudade de ter quinze anos e uma vida linda pela frente. Pode ser mesmo que isso passe, pode ser que amanhã eu acorde e você tenha ido embora. Ainda assim, ainda que amanhã chegue para estragar tudo, poder chegar em casa e ver tudo diferente já são milhões de quilômetros rodados. Zilhões.

Você não sabe, nem sonha, mas você acaba de zerar minha vida. Minha vida era acordar todos os dias e sentir aquele gosto de merda na boca. Minha vida era vestir a armadura e relembrar com dor pela milésima vez todos os últimos podres de todas as pessoas podres que passaram ultimamente pela minha vida. Você acaba de zerar tudo. Com o seu medo de beijo na orelha e com o seu jeito de se desculpar por falar demais e trocar nomes, você acaba de me salvar.

Esse texto é pra te falar uma coisa boba. É pra te pedir que não tenha medo de mim. Sabe esses textos que eu publico aqui, falando putaria? Sabe esses textos falando que eu sei disso e sei daquilo? Eu não sei de nada. Eu só queria ser salva das pedras, eu só queria aprender a pegar carona nas ondas. Eu só queria que isso que eu to sentindo agora durasse mais de uma semana. Eu só queria poder chegar em casa e ver tudo diferente. Ver tudo bonito. Ver tudo como de fato é. E você salvou minha vida. O mundo está lindo. Não tenha medo de mim.

Não tenha medo desse texto. Não tenha medo da quantidade absurda de carinho que eu quero te fazer. E de eu ser assim e falar tudo na lata. E de eu não fazer charme quando simplesmente não tem como fazer. E de eu te beijar como se a gente tivesse acabado de descobrir o beijo. E de eu ir dormir com dor na alma o final de semana inteiro por não saber o quanto posso te tocar. Não tenha medo de eu ser assim tão agora. E desse meu agora ser do tamanho do mundo. Não tenha medo. Eu sou só uma menina boba com medo da vida. Mas hoje eu não tenho medo de nada, eu apenas fecho os olhos e lembro de você me, fazendo piada ruim as duas da manhã, me lendo no escuro mesmo com dor de cabeça.

Eu posso sentir isso de novo. Que bom. Achei que eu ia ser esperta pra sempre, mas para a minha grande alegria estou me sentindo uma idiota. Sabe o que eu fiz hoje? As pazes com o Bob Marley, com o Bob Dylan e até com o ovomaltine do Bob´s. As pazes com os casais que se balançam abraçados enquanto não esperam nada, as pazes com as pessoas que não sabem ver o que eu vejo. E eu só vejo você me ensinando sobre estrelas (cadentes ou não). Eu só vejo você enchendo minha vida de estrelas. Se você puder, não tenha medo. Eu sou só uma menina que voltou a ver estrelas. E que repete, sem medo e sem fim, a palavra estrela no mesmo parágrafo. Estrela, estrela, estrela. Zilhões de vezes estrela.